Assíndeto

Mestre em Linguística, Letras e Artes (UERJ, 2014)
Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFBA, 2007)

A palavra Assíndeto é originária do grego “assýndeton”, que significa “não unido”, “não ligado”. Em outras palavras, o assíndeto é a figura de sintaxe que consiste em uma ausência de ligação entre dois termos oracionais. Isto significa que, quando as orações de um período ou as palavras de uma oração se sucedem sem a presença da conjunção coordenativa, que em um contexto gramatical padrão sintático poderia uni-las, tem-se o assíndeto.

O assíndeto é caracterizado por um processo potente de encadeamento de enunciado que convida o leitor a ter uma atenção maior na leitura de cada fato. Essa percepção atenta é necessária, uma vez que o encadeamento assindético mantém os fatos dentro de uma unidade, em sua independência, em razão das pausas rítmicas. Percebe-se maior incidência dessa figura de construção na expressão escrita, principalmente na linguagem literária. Para melhor compreender, leia o exemplo que segue.

Eram vizinhos na vida, conviviam, assemelhava-se um com o outro, praticando os mesmos costumes, as mesmas rabugices de velhos cansados. Acordavam, davam-se aos cuidados do quarto, aos cuidados do corpo, às ordens para que se preparasse o café da manhã, seguiam para o jardim onde podiam se ver, acenavam um para o outro e baixavam a cabeça a concentrarem-se na leitura de seus jornais. O mesmo jornal, o mesmo jornaleiro, todos os dias, o mesmo ritual. Contudo, contrários em opiniões políticas, ofendiam-se se se colocavam a conversar. Logo, os dias secos, vazios, sem incomuns acontecimentos, seguiam iguais lado a lado, casas coladas, vidas erguidas sobre a mesma história, histórias separadas por lados opostos. Era um militar, o outro um professor, viveram juntos, porém separados; a ditadura. Sofreram, cada um ao seu modo. Agora, liam tenebrosas notícias, entendiam-se novamente em campos desiguais.

(Texto: Leticia Gomes Montenegro; Ensaiando um conto. 24/02/2018)

Análise: Trata-se de um texto em prosa, com conotação literária. Uma espécie de mini conto que narra a vida de dois personagens. Um militar e um professor, com vidas que se aproximam e se distanciam ao mesmo tempo, e são narrados através desse movimento de oposição e atração dos sentidos de suas vidas. O que possibilita ao escritor uma descrição pausada e pesada, enfatizando cada fato, cada ação entre vírgulas sem a presença da conjunção aditiva e com poucas conectivos. O encadeamento dos passos exige essa descrição contínua e separada ao mesmo tempo. Expressividade conferida pela construção sintática sem conexão entre orações e entre os termos que poderiam estar unidos pelo “e”. Tem-se uma sucessão de orações coordenadas assindéticas.

Eram vizinhos na vida, conviviam, assemelhava-se um com o outro, praticando os mesmos costumes, (elíptico o verbo: praticando) as mesmas rabugices de velhos cansados.

Com este trecho, destaca-se a construção do período composto por coordenação, em que as orações dão independentes sintaticamente e dividem-se em sindéticas ou assindéticas. A oração coordenada ligada por uma conjunção é sindética (tem presença de conectivo); e a oração coordenada que não apresenta conectivo é assindética. O que também define a figura de sintaxe “assíndeto”.

Bibliografia:

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. – 37. ed. rev., ampl. e atual. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

CUNHA, Celso e CINTRA, Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. – 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

CUNHA, Celso e CARDOSO, Wilton. Português através dos Textos. 2 ed. – Belo Horizonte: Bernardo Álvares, 1970.

GARCIA, Maria Cecília. Minimanual compacto de gramática da língua portuguesa: teoria e prática – 1. ed. – São Paulo: Rideel, 2000.

Koch, Ingedore Grunfeld Villaça. A inter-ação pela linguagem. 5 ed. – São Paulo: Contexto, 2000 – Coleção: Repensando a Língua Portuguesa

MARTELOTTA, Mário Eduardo. (org.) – Manual de Linguística. – 1 ed., 2ª reimpressão.- São Paulo: Contexto, 2009.

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