Gramática funcionalista

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)
Graduação em Letras (Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, FUNCESI)

A gramática funcionalista ocupa-se de estudar, segundo Fragoso (2003, p.1), o modo como determinada língua é usada por seus falantes para fins de comunicação. Em outras palavras, busca-se identificar as maneiras pelas quais se manifestam os diferentes gêneros de texto na sociedade. Para clarear esse conceito, solicita-se a leitura do poema “Cota zero”, escrito por Carlos Drummond de Andrade:

Cota Zero

STOP.
A vida parou
ou foi o automóvel?

Não importa a extensão. O texto é concebido como qualquer sequência linguística que faça sentido em determinada situação de interlocução. No poema em questão, construído de modo conciso e formal, o eu poético ironiza de maneira questionadora o avanço tecnológico, que consiste em uma forma de escravizar as pessoas, tornando-as paralisadas e impotentes. O poema tem propósito definido: sensibilizar o seu leitor, inserindo-o na problemática focada.

A análise de uma manifestação textual requer o olhar minucioso para a sua estrutura interna, bem como para o contexto em que ela se encontra. Questões como: quem diz, o que diz, para quem diz, com qual objetivo, de que forma o faz, com que nível de linguagem, por que suporte (meio em que o texto se materializa), entre outras, devem permear a referida abordagem.

Na sequência, há uma tentativa de descrição de uma conversa cotidiana, proposta pela autora deste artigo, com a intenção de se perceberem algumas peculiaridades que regem o funcionamento dos textos orais:

― Maria, fui no supermercado, depois eu fui na farmácia, aí eu passei na casa de João. Ele falô que não vai dá pra arrumá a encanação amanhã, não. Ele falô que tá muito apertado esses dias...
― Mais, José, cê não falô pra ele que é urgente? Olha o vazamento, José!
― Falei, mais ele repetiu que não pode...
― E o que a gente faz?
― Maria, pode deixá, vou tentá arrumá os canos.

Na conversa cotidiana acima, José enumera para Maria os locais aonde ele foi, focando-se na ida à casa de João, com o intuito de chamá-lo para consertar os canos, pois havia vazamento em sua residência. No diálogo entre o casal, são notadas diferentes marcas da oralidade, a saber:

  • “no” (junção de em + o), após o verbo “ir”: “Fui no supermercado, na farmácia, na casa”;
  • Repetição de palavras: “fui”, “falô”, “ele”, “Maria”, “José”.
  • Reforço do “não” em afirmações negativas: “Ele falô que não vai dá pra arrumá a encanação amanhã, não.”
  • Redução de fonemas em: “cê”, “tá”, “pra”;
  • Acréscimo do fonema “i” na pronúncia de “mas”, conjunção indicadora de oposição: “Falei, mais ele repetiu que não pode...”;
  • Redução do fonema “r” em verbos no infinitivo, por meio da pronúncia mais acentuada da última vogal:“arrumá”, “deixá”, “tentá”;
  • Redução do fonema “u” ao final de verbos indicadores do tempo passado, tonalizando-se a vogal “o”: “falô”;
  • Emprego do verbo no presente do indicativo em sentenças imperativas: “Olha o vazamento, José!”.

Em suma, a gramática funcionalista estuda, como por exemplo, as características inerentes à modalidade oral, por meio da observação de uma conversa informal; ou as especificidades de um texto literário. Em outras palavras, ocupa-se de entender como a língua se manifesta nas diferentes circunstâncias de interação, ou seja, como a língua funciona. Busca-se compreender os processos que conduzem à produção dos inúmeros textos, orais e escritos, formais e informais, nos mais diversificados contextos socioculturais.

Referências:
ANDRADE, Carlos Drummond de. Cota Zero. In: ___ Alguma Poesia, 1930.

FRAGOSO, Luane da Costa Pinto Lins. A Gramática Funcional e o Processo de Gramaticalização. In: Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades. Unigranrio. Vol. II, n. VI - Jul-Set 2003. Disponível em: http://publicacoes.unigranrio.com.br/index.php/reihm/article/viewFile/422/414 . Acesso em: 02 de dezembro de 2015.

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