De prima inuentione Guineae (obra de Diogo Gomes)

No século XV, os portugueses iniciavam sua expansão marítima. As viagens eram ao mesmo tempo perigosas e cheias de descobertas emocionantes, um pouco como acontece hoje com o astronauta.

Guiné é o nome que os portugueses davam originalmente a toda área ao sul do Marrocos no início das navegações. Em outras palavras, era a região dos negros. Ao que tudo indica, o nome deriva de gnawa (gnaoua), termo da língua berbere (tamazight), usado para se referir ao negro. O termo sobrevive ainda hoje, nos nomes de países como Guiné, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Papua Nova Guiné (este último, apesar de localizado no Pacífico, tem uma população predominante melanésia, os papuas, de aparência semelhante a negros africanos, daí o nome Nova Guiné).

Diogo Gomes (c. 1420 – c. 1500) foi um dos aventureiros que explorou a Guiné. Um ponto, porém, que o destaca de tantos outros, é que ele pertencia ao círculo do rei Henrique, o Navegador, grande entusiasta das viagens. Gomes visitou as atuais nações de Mauritânia, Senegal, Guiné-Bissau, Guiné e Cabo Verde, além das ilhas dos Açores, Canárias e Madeira. Ele alegava ter descoberto e batizado a ilha de Santiago, a principal do arquipélago de Cabo Verde, ato contestado por outros navegadores contemporâneos a serviço de Portugal.

Em idade avançada, ele ditou oralmente suas memórias ao cartógrafo alemão Martin Behaim, cujo trecho de maior destaque é “De prima inuentione Guineae” (em latim, A primeira descoberta da Guiné). “A primeira descoberta da Guiné” é complementada por duas outras partes, “De insulis primo inventis in mare Occidentis” (um relato sobre as Canárias e Madeira) e De inventione insularum de Acores (contendo o único registro detalhado da descoberta portuguesa dos Açores). Juntas, as três partes compunham o chamado “Manuscrito Valentim Fernandes”, documento conhecido ainda como Relação de Diogo Gomes.

O livro foi ditado em algum período, não se sabe ao certo, entre 1484 e 1502. Behaim não falava português, e provavelmente trabalhou com a ajuda de um intérprete. O resultando foi um texto em latim bastante precário, que denota a pressa com que o trabalho foi realizado. Esquecido por séculos, o manuscrito só foi encontrado em Munique, em 1847, tendo a sua primeira edição impressa pela Academia de Ciências da Bavária no mesmo ano. A partir daí, várias edições em inglês, francês e português foram editadas. A mais recente edição em português saiu em 2002, com o título “Descobrimento primeiro da Guiné”.

Enquanto o Brasil tem uma carta como “certidão de nascimento”, é seguro dizer que esta parte da África possui um livro completo dedicado a si. O conteúdo é próximo à da carta de Pero Vaz, buscando dar um panorama sobre a área explorada. É o único testemunho legado por um navegador próximo a D. Henrique, e o único a detalhar esta região da África no período.

Por Emerson Santiago Silva.

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