O Primo Basílio

Publicado em 1878 “O Primo Basílio” é um dos mais conhecidos e importantes romances do escritor português Eça de Queiroz. Ele foi escrito em Portugal, numa época de forte tendência realista na literatura. Sua leitura reporta a um tema sempre presente na estética realista: o adultério, o mesmo tema do romance francês “Madame Bovary” (1857), de Gustave Flaubert e do romance brasileiro “Dom Casmurro” (1899), de Machado de Assis.

Para se compreender esta obra, faz-se necessário manter um diálogo com o que acontecia na época no campo literário, a fim de situá-la no contexto em que a obra foi produzida.

Enquanto no Romantismo procurava explorar a situação que antecedia o casamento, como os obstáculos que seus personagens, em sua maioria adolescentes, enfrentavam até chegar ou não ao objetivo principal: o casamento como meio de realização amorosa, no Realismo procurava-se focalizar a situação criada após o casamento, aquela em que a classe média procurava esconder por detrás da fachada da instituição. Assim, com os olhos voltados para a realidade, o escritor realista propõe-se a explorar “cientificamente” a infidelidade conjugal, revelando-a muito mais freqüente do que se fazia imaginar a aparente harmonia da burguesia romântica, fazendo-lhe cair a máscara hipócrita.

Como a burguesia era a principal consumidora dos romances, os escritores realistas pretendiam mudar, através da crítica, o comportamento dessa classe social, responsável pelos destinos social, econômico, político e moral do país.

Percebem-se dois eixos na trama de “O Primo Basílio”: um compõe a ação principal e focaliza o casamento, instituição básica da burguesia atingida severamente pelo adultério; o outro constrói um importante “pano de fundo” com variados tipos sociais (Julião, Sebastião, Acácio, D. Felicidade, Ernesto e outros), retrato nada animador da sociedade da época.

A ação central do romance apresenta o triângulo amoroso Jorge-Luísa-Basílio. Ela é acompanhada pelos olhos observadores e perspicazes de um narrador onisciente de terceira pessoa e chega ao leitor “moldada” por sua perspectiva crítica e analítica.

Luísa, a burguesinha bonita, loira e desmiolada, não faz nada na vida a não ser ler romances românticos, evidentemente, sendo facilmente seduzida pelo primo Basílio, tão logo o marido Jorge afasta-se de casa em viagem de trabalho. Casados por conveniência, longe de ser um casamento firmado em bases sólidas, Luísa não resiste ao ataque do primeiro sedutor que aparece, entregando-se sem remorso.

Os personagens centrais são conduzidos pelo narrador a fim de cumprir papéis predeterminados na obra, apresentando-os excessivamente esquematizados. Duas figuras femininas merecem destaque: Leopoldina e Juliana. Ambas se apresentam como figuras femininas masculinizadas. Leopoldina fuma (algo incomum no século XIX), tem “sentimentos” por amigas, acha o adultério o comportamento “mais normal” do mundo, não se importa com a opinião pública e Luísa sente atração física por ela; Juliana ocupa inicialmente um lugar secundário na narrativa: tem formas secas, mas com o desenrolar dos fatos ela ganha dimensão na obra, tornando-se a personagem mais bem elaborada dentro do romance. Ela assume o papel de “marido vingador”, punindo Luísa em prol da honra de Jorge.

No desfecho da obra, Eça busca manter-se fiel à narrativa realista, assumindo um papel de artista vingador. A morte de Juliana e a destruição das cartas comprometedoras de Luísa não impedem Jorge de saber a verdade. Luísa não sofre com o adultério em si. Ela sofre com a decepção amorosa em relação a Basílio e com o medo de ser castigada por Jorge, (com a morte talvez) ou do temor de perder sua vidinha mansa e docemente sensual para ser enterrada num convento. Eça assume esse papel vingador numa carta a Teófilo Braga: “é preciso punir os vícios para saná-los”.

Fontes
Carta a Teófilo Braga. In Obras de Eça de Queiroz. Porto, Lello & Irmãos Editores, s.d., vol. I, p. 1174-1176.

BARROS, Elenir Aguilera. A Bengalada do Homem de Bem. In O Primo Basílio – Eça de Queiroz. São Paulo, FTD, 1994, p. 07-13.
MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira. Vol. II. Romantismo, Realismo. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1984, p. 325.

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