Narrador onisciente

Mestra em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP, 2012)
Graduada em Letras (PUC-SP, 2008)

Publicado em 26/03/2019

O narrador onisciente é aquele que conta a história em terceira pessoa e, às vezes, admite a narração em primeira pessoa fazendo algumas intromissões pessoas acerca das ações narradas. Pensando no conceito de onisciência que significa a capacidade de estar a par de tudo, de saber as coisas em sua totalidade, o narrador onisciente é uma categoria que conhece toda a história a ser contada, ele sabe a trama em detalhes.

Se tudo é de conhecimento absoluto do narrador onisciente, ele tem ciência do que se passa no íntimo dos personagens, sabendo até mesmo quais emoções e pensamentos os acometem. Essa categoria de narrador é capaz de revelar ao leitor as vozes interiores da personagem e seu fluxo de consciência, por meio do discurso indireto livre.

Podendo ser chamado igualmente de onipresente, o narrador, embora não participe das ações narrativas, quando o foco narrativo é em primeira pessoa revela os seus próprios pensamentos e o seu fluxo de consciência. O poder de criação que o autor confere ao narrador onisciente permite que este modifique e estabeleça sua visão narrativa como a verdade possível.

Em algumas obras literárias, o narrador assume a função de intruso, pois não se limita a narrar a história e acaba fazendo críticas aos personagens e atribuindo juízo de valor à suas ações. Como o narrador não faz parte diretamente do enredo, ele é livre para atribuir julgamentos, posiciona-se contra ao favor de determinadas ações e emitir sua opinião a respeito. Em Quincas Borba, de Machado de Assis, há um excelente exemplo de narrador onisciente intruso.

O narrador onisciente neutro é o contraponto ao intruso, uma vez que a narração neutra pressupõe que não deve haver observações e opiniões do narrador. Nesta categoria, o narrador simplesmente se ocupa das descrições dos personagens e da narrativa do enredo. O livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert, apresenta o narrador neutro.

Um terceiro tipo é o narrador onisciente múltiplo que possui diferentes opiniões e visões que vão sendo reveladas ao longo da trama. Essa categoria de narrador influencia e conduz a interpretação do leitor que se vê impelido a tomar partido ou tomar uma decisão a respeito do que acha sobre determinado personagem ou sobre determinada ação. Na obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a presença do narrador múltiplo é perceptível.

No que diz respeito às descrições minuciosas sobre o universo em que a narrativa acontece, mantendo um olhar diferenciado para o prosaísmo, isto é, o cotidiano, os narradores que se destacam são os porta-vozes de escritoras como Clarice Lispector e Virgínia Woolf. O narrador clariceano consegue até vislumbrar a epifania literária, conceito descoberto e difundido por James Joyce, ou seja, na minúcia e na simplicidade do dia a dia existem coisas a serem reveladas pelo tecido narrativo.

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