Discurso indireto

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)
Graduação em Letras (Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, FUNCESI)

Quando queremos narrar ou citar as falas de alguém, muitas vezes usamos o discurso indireto. Mas, o que significa “discurso indireto”? É o dizer com as próprias palavras a fala do outro. Para entender melhor esse tipo de recurso, peço-lhe que leia este trecho de “Minha vida de menina”, um diário escrito por Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant:

Nossa casa é pequena e todo reboliço se escuta na sala. Eu e Luisinha temos uma infelicidade conosco; meu pai não gosta de nos ver rir muito. Mas parece até pirraça e juro que não é: quando meu pai está na lavra, só rimos quando há motivo; mas se ele está em casa, uma não pode olhar para a outra que disparamos no riso.

Depois que Joviano está vindo, meu pai recomendou que não ríssemos nem falássemos cá dentro, pois o rapaz ficava de ouvido alerta para escutar o que falávamos e não prestava atenção à aula.

Note que, na passagem “[...] meu pai recomendou que não ríssemos nem falássemos cá dentro, pois o rapaz ficava de ouvido alerta para escutar o que falávamos e não prestava atenção à aula.”, Helena diz com as suas próprias palavras a fala do pai dela. A recomendação, acompanhada de uma justificativa, dada pelo pai é apresentada de modo indireto, ou seja, é apresentada por Helena, não pelo próprio pai. Por isso, podemos afirmar que ela Helena usou, nessa passagem, o discurso indireto.

Marcas do discurso indireto

O discurso indireto, assim como o discurso direto, é introduzido por um “verbo de dizer”. No trecho do diário acima, o verbo “recomendou” introduz o discurso indireto. Observe que a narradora não empregou sinal de pontuação para separar a fala dela da fala do pai. Ela empregou a conjunção “que” (“[...] que não ríssemos nem falássemos [...]”. Geralmente, a conjunção “que” e a conjunção “se” são utilizadas no discurso indireto para a introdução das falas que não pertencem ao narrador ou autor. Vale acrescentar o uso do “verbo de dizer” na 3ª pessoa, já que se trata da fala do outro. A noção de tempo corresponde ao contexto do narrador, não ao contexto do personagem.

Discurso direto x discurso indireto

Para não deixar dúvidas quanto à diferença entre o discurso direto e o discurso indireto, sugiro que observe estas duas frases:

– Parem de rir, meninas! – disse o pai.

O pai disse às meninas que parassem de rir.

Na primeira frase, a fala do pai é apresentada com as próprias palavras dele. Nesse caso, vemos o discurso direto, que é marcado por sinais de pontuação: o travessão, a vírgula que separa o vocativo “meninas”, o ponto de exclamação; e pelo verbo “disse”. Já na segunda frase, alguém conta com as próprias palavras a fala do pai. Nesse cenário, temos o discurso indireto, introduzido pela conjunção “que”. Repare que o verbo “parar” muda do modo imperativo no discurso direto para o modo subjuntivo no discurso indireto. Isso porque a noção de tempo neste tipo de discurso segue o contexto de quem contou o que foi dito, não o contexto de quem de fato disse (o pai). Cabe acrescentar que o tom exclamativo no discurso direto assumiu um tom declarativo no discurso indireto.

Para concluir:

O discurso indireto é a apresentação das falas dos outros, reais ou fictícios, com as nossas próprias palavras. Em outras palavras, quem diz, oralmente ou por escrito, reelabora a fala do outro, ou seja, diz do seu próprio jeito.

Leia também:

Referências:

CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley. Discurso direto, discurso indireto e discurso indireto livre. In: ___ Nova gramática do português contemporâneo. 5.ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2008. p. 649-656.

FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Modos de citação do discurso alheio. In: ___

Para entender o texto: leitura e produção. 15 ed. São Paulo: Ática, 1999, p.181-191.

MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. 3.ed. São Paulo: Cortez. 2004.

MORLEY, Helena. Minha vida de menina. 1.ed. São Paulo: Companhia de Bolso, 2016. p.194.

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