Discurso indireto livre

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)
Graduação em Letras (Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, FUNCESI)

Discurso indireto livre! Pelo nome, já percebemos que esse tipo de discurso indireto tem alguma liberdade, não é mesmo? Mas, de que liberdade estamos falando? Como o discurso indireto livre é construído? Nele, as fronteiras que separam a fala do narrador da fala do personagem são rompidas. A voz do personagem permeia a voz do narrador no contexto comunicativo. Achou meio complexo isso? Vamos entender melhor esse assunto? Para tal, leia este fragmento do romance “Sagarana”, de Guimarães Rosa:

Enlameado até a cintura, Tiãozinho cresce de ódio. Se pudesse matar o carreiro... Deixa eu crescer!... Deixa eu ficar grande!... Hei de dar conta deste danisco... Se uma cobra picasse seu Soronho... Tem tanta cascavel nos pastos... Tanta urutu, perto de casa... se uma onça comesse o carneiro, de noite... Um onção grande, da pintada... Que raiva!...

Mas os bois estão caminhando diferente. Começaram a prestar atenção, escutando a conversa de boi Brilhante.

Tendo em vista o que foi exposto no princípio deste artigo, proponho um desafio. Topa? Então, identifique o discurso indireto livre:

(   ) Enlameado até a cintura, Tiãozinho cresce de ódio.
(   ) Deixa eu ficar grande!...
(   ) Começaram a prestar atenção, escutando a conversa de boi Brilhante.

Qual das frases acima, possivelmente, exprime um discurso do personagem? A segunda frase, não é? Note que não há aquelas marcas próprias do discurso indireto (verbos do dizer ou as conjunções “que” ou “se”) para a indicação da fala alheia, isto é, para a indicação da fala do personagem. Daí vem a liberdade que caracteriza esse tipo de discurso.

Mas, como identificamos que a fala Deixa eu ficar grande!... pertence ao personagem “Tiãozinho”, não ao narrador? A mudança da pessoa sugere isso. Os trechos Enlameado até a cintura, Tiãozinho cresce de ódio. e Começaram a prestar atenção, escutando a conversa de boi Brilhante. estão na 3ª pessoa. Nesse caso, temos a voz do narrador. Porém, surge a 1ª pessoa: a voz do personagem Tiãozinho, que foi apresentado no princípio do fragmento do romance. Veja novamente:

Enlameado até a cintura, Tiãozinho cresce de ódio. Se pudesse matar o carreiro... Deixa eu crescer!... Deixa eu ficar grande!... Hei de dar conta deste danisco... Se uma cobra picasse seu Soronho... Tem tanta cascavel nos pastos... Tanta urutu, perto de casa... se uma onça comesse o carneiro, de noite... Um onção grande, da pintada... Que raiva!...

O narrador nos conta que Enlameado até a cintura, Tiãozinho cresce de ódio. Depois, ele apresenta algumas falas do personagem que exprimem os seus pensamentos, os seus desejos e os seus sentimentos em relação à situação em que se encontra. Outro elemento que merece destaque, pois sugere a mudança de voz, é a linguagem. Observe que as falas do narrador apresentam um tom formal, ao passo que as falas do personagem apresentam de modo predominante um tom informal. Com essa mudança na linguagem, o narrador transporta o leitor para o contexto do personagem, aproximando-os. Enfim, as vozes do narrador e do personagem fundem-se em um todo significativo e expressivo.

Para concluir:

O discurso indireto livre como o próprio nome indica é um tipo de discurso indireto. Porém, o discurso indireto livre não apresenta aqueles recursos que demarcam explicitamente os territórios do narrador e do personagem. As vozes do narrador e do personagem mesclam-se no contexto comunicativo.

Leia também:

Referências:

CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley. Discurso direto, discurso indireto e discurso indireto livre. In: ___ Nova gramática do português contemporâneo. 5.ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2008. p. 649-656.

FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Modos de citação do discurso alheio. In: ___

Para entender o texto: leitura e produção. 15 ed. São Paulo: Ática, 1999, p.181-191.

ROSA, Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.

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