Cesariana em animais

Mestre em Ciência Animal (UFG, 2013)
Graduada em Medicina Veterinária (UFG, 2010)

Em fêmeas prenhes, a incapacidade de expulsão dos fetos pelo canal do parto é considerada uma emergência veterinária. Dentre os animais domésticos as espécies bovina e canina são as mais acometidas.

Conceitua-se como distocia a dificuldade ou impossibilidade do nascimento natural dos filhotes, provenientes de uma ninhada. Essa falha pode ser desencadeada por problemas de origem materna ou fetal. Em cadelas a maioria das distocias são de procedência materna e apenas 25% de origem fetal. Já em bovinos relata-se o inverso, ou seja, a distocia de origem fetal é mais preponderante.

A etiologia envolve fatores endócrinos, nutricionais, cronológicos e raciais. Animais de alta linhagem, como os cães da raça Buldogue e os bovinos de cruzamentos industriais com raças europeias, são bastante afetados. Em relação à idade de concepção, tanto as fêmeas muito jovens, quanto aquelas de idade avançada são mais predispostas à distocia. Animais diabéticos ou com quaisquer alterações em sua higidez também estão susceptíveis.

Observa-se a distocia de origem materna principalmente em fêmeas primíparas ou com múltiplos fetos e, dentre as principais causas, cita-se o estreitamento das vias fetais moles e duras, a torção uterina, as contrações excessivas e a atonia uterina. Esse último fator ocorre primariamente por deficiência hormonal e de forma secundária por exaustão do miométrio, porém ambos falham na resposta à ocitocina exógena.

As vias de passagem do feto podem apresentar-se estreitadas em razão de dilatação insuficiente, torção do corno uterino, vulva infantilizada, estenose vaginal, vagina hipoplásica, hiperplasia do assoalho vaginal, excesso de gordura, neoplasias e também por alterações psíquicas como o medo.

A distocia de origem fetal manifesta-se em decorrência de anomalias na formação congênita (gêmeos siameses, hidrocefalia), tamanho excessivo do feto, alterações na estática fetal e deficiência hormonal proveniente do feto. Em partos eutócicos ou normais, no interior do útero, o filhote encontra-se em apresentação longitudinal e postura estendida, já em partos distócicos pode-se observar animais com flexão de pescoço ou membros, capazes de culminar em distocia obstrutiva.

O período gestacional envolve inúmeras alterações no organismo da fêmea e, consequentemente, a possibilidade de complicações gravídicas não é rara. O acompanhamento prévio desse animal, pelo médico veterinário, é determinante para o sucesso da gestação e do parto. Por meio do exame obstétrico e de imagens como a ultrassonografia pode-se analisar o útero, os filhotes e identificar anormalidades.

O diagnóstico da distocia e a assistência à parturiente precisam ser rápidos para que não haja comprometimento fatídico da vida da mãe e dos fetos. As manobras obstétricas, a administração de fármacos e a remoção cirúrgica dos filhotes são as intervenções disponíveis para solucionar a distocia. A histerotomia ou cesariana consiste-se na incisão ou corte do útero para a retirada dos filhotes e seus anexos. Essa técnica cirúrgica pode variar de acordo com a espécie e a condição em que o animal se encontra. Em pequenos animais comumente faz-se a incisão na linha média ventral para acessar a cavidade abdominal. Em grandes animais, a incisão pode ser pelo flanco ou paralombar esquerda e também paramediana ventral.

Em grandes ninhadas, os fetos precisam ser manipulados através dos cornos uterinos até o local da incisão cirúrgica para serem retirados, seus sacos amnióticos precisam ser rompidos e o cordão umbilical pinçado. Em fêmeas que opte-se pela manutenção do útero, esse deve ser inspecionado, a placenta que não tiver sido eliminada juntamente com os fetos deve ser removida do endométrio e o órgão suturado com fio absorvível. Em seguida, a parede abdominal e o tecido subcutâneo são também fechados com fio absorvível e apenas na camada da pele é que deve-se utilizar fios não absorvíveis.

É de responsabilidade da equipe veterinária a atenção aos recém-nascidos, que precisam ter o líquido amniótico eliminado das narinas, além do estímulo respiratório, do aquecimento e de outros cuidados, até que a mãe se recupere da cirurgia. Dessa forma, o prognóstico da distocia corrigida por cesariana é favorável para os animais atendidos em tempo hábil.

Referências:

Liguori KH et al. Distocias em Cadelas - Revisão de Literatura. Alm. Med. Vet. Zoo. Ourinhos. v2(1):14-19. 2016.

SIMAS, R. C. et al. Técnica cirúrgica para cesarianas em cadelas e gatas. Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária. Garça, v.9(18):1-6, 2012.

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