A melancolia é um estado de tristeza profunda e persistente, acompanhado de desânimo, falta de energia e perda do interesse pelas coisas do mundo. Ao longo da história, o termo teve muitos significados: já foi considerado uma doença causada por um humor do corpo, um temperamento associado aos pensadores e artistas, um estado de espírito poético e, na psiquiatria moderna, uma forma particular de depressão. A palavra vem do grego melancholía, formada por mélas (“negro”) e cholé (“bile”), ou seja, “bile negra”.
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A melancolia na Antiguidade
A origem do conceito está na teoria dos humores, desenvolvida na medicina grega e associada a Hipócrates e seus seguidores. Segundo essa teoria, o corpo humano teria quatro humores:
- sangue;
- fleuma (ou pituíta);
- bile amarela;
- bile negra.
A saúde dependeria do equilíbrio entre eles. O excesso de bile negra, que se acreditava ser produzida no baço, causaria a melancolia, marcada por tristeza, medo e desânimo sem motivo aparente. Mais tarde, o médico Galeno, no Império Romano, consolidou essas ideias, que dominaram a medicina europeia por muitos séculos.
Melancolia, Saturno e genialidade
Na Idade Média e no Renascimento, a medicina se misturava com a astrologia, e a melancolia passou a ser associada ao planeta Saturno, considerado frio, lento e sombrio. Ao mesmo tempo, ganhou força a ideia, que remonta a um texto atribuído à escola de Aristóteles, de que os grandes pensadores, poetas e artistas teriam temperamento melancólico.
Assim, durante a Renascença, estar melancólico podia ter um certo prestígio, como sinal de uma alma profunda e reflexiva. Um dos exemplos mais famosos dessa visão é a gravura Melencolia I (1514), do artista alemão Albrecht Dürer. No Romantismo, no século XIX, a melancolia também foi valorizada como fonte de inspiração poética.
Freud: luto e melancolia
Sigmund Freud, criador da psicanálise, escreveu um dos textos mais importantes sobre o tema: Luto e Melancolia, publicado em 1917. Nele, Freud compara os dois estados:
- No luto, a pessoa sofre pela perda de alguém ou de algo que ela sabe identificar. Há tristeza profunda, desinteresse pelo mundo e dificuldade de amar novamente, mas a autoestima se mantém.
- Na melancolia, os sintomas são semelhantes, mas a perda nem sempre é consciente: a pessoa pode não saber exatamente o que perdeu. Além disso, há uma forte queda da autoestima, com autocríticas severas, sentimento de culpa e até expectativa de punição.
O próprio Freud reconhecia que era difícil definir a melancolia com precisão, já que ela se manifesta de formas variadas. Na mesma época, a psiquiatria alemã começava a substituir gradualmente o termo “melancolia” pelo termo “depressão”.
Melancolia na psiquiatria atual
Atualmente, a melancolia não é um diagnóstico independente. Nos manuais de classificação, como o DSM-5, ela aparece como uma característica de alguns episódios de depressão: fala-se em depressão “com características melancólicas”. Entre os sinais desse quadro estão:
- perda quase total da capacidade de sentir prazer;
- ausência de melhora do humor diante de acontecimentos positivos;
- sintomas geralmente piores pela manhã;
- despertar muito cedo;
- lentidão ou agitação dos movimentos;
- perda de apetite ou de peso;
- culpa excessiva ou inadequada.
Tratamento
Quando a melancolia faz parte de um quadro depressivo, o tratamento deve ser conduzido por profissionais de saúde mental. As principais opções incluem:
- Medicamentos antidepressivos, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, os antidepressivos tricíclicos e os inibidores da monoamina oxidase (MAO), indicados pelo psiquiatra;
- Psicoterapia, que ajuda o paciente a compreender a origem de seus sentimentos e a desenvolver formas de lidar com eles;
- Eletroconvulsoterapia, realizada com anestesia em ambiente hospitalar, reservada a casos graves ou que não respondem a outros tratamentos.
Melancolia na cultura
Além de tema médico, a melancolia é um assunto importante na filosofia, na literatura e nas artes. O filósofo alemão Walter Benjamin, por exemplo, refletiu sobre ela em seus estudos sobre a história e a cultura. No Brasil, o escritor e médico Moacyr Scliar dedicou ao tema o livro Saturno nos Trópicos, no qual analisa como a ideia de melancolia chegou ao país e se manifestou em sua cultura. No uso cotidiano, a palavra também designa uma tristeza suave e passageira, um estado de espírito nostálgico que nem sempre corresponde a uma doença.
Referências
Texto originalmente publicado em https://www.infoescola.com/psicologia/melancolia/
