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Igreja Luterana

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A Igreja Luterana é a denominação cristã que nasceu da Reforma Protestante do século XVI e segue os ensinamentos de Martinho Lutero, o monge alemão que rompeu com a Igreja Católica. Foi a primeira grande igreja protestante e, ainda hoje, reúne dezenas de milhões de fiéis no mundo, sobretudo na Alemanha, nos países nórdicos e nos Estados Unidos. No Brasil, sua história está ligada diretamente à imigração alemã.

Quem foi Martinho Lutero

Lutero nasceu em 1483, em Eisleben, na Alemanha, filho de uma família de mineradores de origem humilde. O pai queria que ele fosse advogado, e o rapaz chegou a estudar Filosofia e Direito. Em 1505, contrariando a família, entrou para a ordem dos agostinianos. Em 1512 tornou-se doutor em Teologia e passou a lecionar na Universidade de Wittenberg.

Apesar da carreira religiosa bem-sucedida, Lutero vivia angustiado. Via Deus como um juiz severo e duvidava de que algum dia conseguiria merecer a salvação, por mais que rezasse, jejuasse e se confessasse.

A descoberta da “justificação pela fé”

A resposta veio do estudo da Bíblia, um privilégio raro na época, já que as Escrituras circulavam quase só em latim. Ao preparar suas aulas, Lutero se deteve num trecho da carta aos Romanos (1,17): “O justo viverá pela fé”. A partir daí desenvolveu a ideia que se tornaria o coração do luteranismo: a salvação é um presente gratuito de Deus, recebido pela fé em Jesus Cristo, e não algo que se compra ou se conquista com boas obras.

Parece um detalhe teológico, mas as consequências eram enormes. Se a salvação vinha só pela fé, perdia sentido a venda de indulgências, os documentos que a Igreja oferecia em troca de dinheiro para diminuir as penas dos pecados.

As 95 teses e o rompimento com Roma

Em 1517, Lutero divulgou em Wittenberg as suas 95 teses, com duras críticas às indulgências e aos abusos do clero. A tradição diz que ele as pregou na porta da igreja do castelo em 31 de outubro, data que os protestantes celebram até hoje como o Dia da Reforma.

Graças à imprensa, as teses se espalharam rapidamente pela Alemanha. Teólogos católicos tentaram fazê-lo recuar em debates públicos, sem sucesso. Em 1521 ele foi excomungado pelo papa e, pouco depois, declarado fora da lei pelo imperador Carlos V na Dieta de Worms. Só escapou da fogueira porque foi protegido pelo príncipe Frederico, o Sábio, da Saxônia. Escondido no castelo de Wartburg, traduziu o Novo Testamento para o alemão, obra que ajudou a fixar a própria língua alemã escrita.

O apoio de parte da nobreza não era apenas religioso. Muitos príncipes viram na Reforma uma chance de se livrar da influência de Roma e de ficar com terras e bens da Igreja. O momento também era de transformação na economia da Europa, com a burguesia em ascensão. Em 1525, Lutero abandonou o celibato e se casou com Catarina von Bora, uma ex-freira. Ele morreu em 1546, na mesma Eisleben onde havia nascido.

Doutrina e Confissão de Augsburgo

O principal documento da fé luterana é a Confissão de Augsburgo, redigida por Filipe Melanchthon, colaborador de Lutero, e apresentada ao imperador Carlos V em 1530. São 28 artigos: os primeiros expõem a fé luterana e procuram mostrar que ela não é uma seita nova, mas fiel às Escrituras e aos antigos credos cristãos (Apostólico, Niceno e Atanasiano); os últimos tratam dos abusos que os reformadores queriam corrigir. Em 1580, esse e outros textos foram reunidos no Livro de Concórdia, referência para as igrejas luteranas até hoje.

Alguns princípios resumem bem o pensamento luterano: a salvação pela graça, recebida pela fé, e a Bíblia como autoridade máxima. Outro é o sacerdócio universal de todos os crentes, segundo o qual qualquer cristão tem acesso direto a Deus, sem depender de intermediários. Diferentemente de outras igrejas protestantes, os luteranos mantêm dois sacramentos, o batismo e a santa ceia, e acreditam na presença real de Cristo no pão e no vinho. A liturgia também lembra bastante a missa católica, com velas, cantos e vestes litúrgicas.

A Igreja Luterana no Brasil

Há registro de luteranos isolados no Brasil já no século XVI, mas a primeira comunidade organizada só surgiu em 1824, em Nova Friburgo (RJ), com a chegada de imigrantes alemães e do pastor Friedrich Oswald Sauerbronn. Nas décadas seguintes, a imigração alemã levou o luteranismo sobretudo para o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo.

É por isso que, em cidades como Pomerode (SC), Novo Hamburgo (RS) ou Santa Maria de Jetibá (ES), onde vivem muitos descendentes de pomeranos, os templos luteranos fazem parte da paisagem há mais de um século. Ali, durante muito tempo, os cultos foram celebrados em alemão.

Atualmente, os luteranos brasileiros se dividem principalmente em duas igrejas: a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), a maior delas, e a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), de linha mais conservadora. Juntas, somam centenas de milhares de membros.

Referências

Arquivado em: Religião