Dramaturgia

Doutorado em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (PUC-Rio, 2013)
Mestrado em Linguística, Letras e Artes (PUC-Rio, 2008)
Graduação em Jornalismo (PUC-Rio, 2001)

A origem da dramaturgia remonta à tragédia ática, encenada na Grécia Antiga. O enredo destas obras era baseado nos antigos mitos de criação, que simbolizam o eterno conflito entre as forças obscuras que dominam o homem e a sua vontade consciente. O Caos, que representa a origem do universo no mito grego, é o tempo dos incestos míticos, que são os desencadeadores das grandes catástrofes cósmicas. O conceito mítico de “caos” nos remete ao tempo do vazio primordial, anterior à criação, em que a ordem não havia sido imposta aos elementos do universo, simbolizando uma situação absolutamente anárquica, que precede a manifestação e a decomposição de toda forma individual de existência. No momento em que a personalidade individual se desfaz, torna-se abstrata, se revelam com mais nitidez as configurações arquetípicas do ser humano.

Em grande parte das situações trágicas, observamos um retorno a esse tempo primordial, através da repetição das mesmas estruturas coletivas e suas pulsões de criação e destruição. O tempo mítico difere do tempo judaico-cristão, linear e progressivo, caracterizando-se pela ideia de circularidade. Dessa forma, as tragédias não se atém a um tempo histórico demarcado nem se localizam num espaço específico, o que significa que podem ocorrer “em qualquer tempo”, “em qualquer lugar”. As estruturas mitológicas fazem parte do “inconsciente coletivo” da humanidade, o que explica essa ruptura na dobra espaço-temporal. Como observa o crítico Anatol Rosenfeld:

Na dimensão mítica, passado, presente e futuro se identificam: as personagens são, por assim dizer, abertas para o passado que é presente que é futuro que é presente que é passado ‒ abertas não só para o passado individual e sim o da humanidade; confundem-se com seus predecessores remotos, são apenas manifestações fugazes, máscaras momentâneas de um processo eterno que transcende não só o indivíduo e sim a própria humanidade: esta, reintegrada no Arqui-Ser, que a ultrapassa e abarca, é parte da luta eterna entre as forças divinas e demoníacas; é portadora de uma mensagem sobre-humana; ergue-se prometeicamente contra as divindades; é expulsa da unidade original; sofre a tortura de Sísifo num mundo absurdo; vive a frustração do homem que almeja chegar ao Castelo dos poderes insondáveis.

Essa anulação espaço-temporal que marca o retorno ao caos aparece desde as tragédias de Sófocles, autor de Édipo Rei, até a dramaturgia moderna, como no caso de Álbum de Família, de Nelson Rodrigues. Tal constatação é uma prova de que, em pleno século XX, o mundo ainda se encontraria sob o domínio de forças que antecedem à criação. Assim, ao trilhar um caminho mítico e arquetípico, Nelson Rodrigues faz a opção consciente de lidar com os elementos do abismo da alma humana, forças de desejo e morte que emergem em estado bruto e, por isso, extremamente potencializadas.

Em Álbum de Família, observamos o mergulho nesse mundo instintivo, caótico, no qual a entrada da razão é proibida. Despidos das máscaras de conveniência que lhes permitem o convívio em sociedade, os personagens revelam, sem qualquer tipo de pudor, a sua natureza profunda, avessa a quaisquer padrões de condicionamento. A ausência de leis resulta na proliferação dos desejos de criação e morte, que se manifestam aberta e agressivamente.

Outro aspecto central do universo dramatúrgico é a força do destino e da fatalidade, que, muitas vezes, se manifesta na forma de profecia ou maldição. Pode-se observar esse atributo em situações como a cegueira de Édipo, na obra de Sófocles, e a queda de Macbeth, na peça homônima de Shakespeare.

Além dos autores citados, observa-se outros que exerceram importância considerável no universo dramatúrgico, como o norueguês Henrik Ibsen (Um Inimigo do Povo), o russo Anton Tchekhov (As Três Irmãs), o alemão Bertold Brecht (A Vida de Galileu), o irlandês Samuel Beckett (Esperando Godot), o romeno Eugène Ionesco (O Rinoceronte) e os norte-americanos Eugene O’Neill (Electra Enlutada) e Tennessee Williams (A Descida de Orfeu).

Referências bibliográficas:

ARTAUD, A. O teatro e a peste. In: O teatro e seu duplo. Martins Fontes, 2006.

GROTOWSKI, J. Em busca de um teatro pobre. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987.

MAGALDI, S. Nelson Rodrigues, dramaturgia e encenações. São Paulo: Perspectiva, 1987.

ROSENFELD, A. Reflexões sobre o romance moderno. In: Texto/Contexto. São Paulo: Perspectiva, 1973.

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