Poesia

Por Ana Lucia Santana
A poesia é a tradução em palavras do universo desconhecido das emoções, é uma esfera pouco compreendida, que tenta muitas vezes transmitir significados nas entrelinhas dos versos. Este edifício constituído pela magia das palavras revestidas de sonoridades, estruturas rítmicas e visuais, por significações latentes, desvela a alma humana, dá espaço para que ela expresse suas inquietações e anseios interiores.

Os poemas pulsam e vibram com uma vitalidade específica, comunicando ao leitor a própria essência da linguagem. Neles as palavras se combinam compondo sintaxes, ou seja, um quebra-cabeça onde cada peça se encaixa perfeitamente, mas sempre pode ser combinada de outra forma, criando e recriando novas possibilidades.

O poeta cria com a matéria-prima da imaginação, extraindo de si todas as probabilidades latentes, mas ele não se atém apenas à criatividade diante da página em branco; ele explora todos os mecanismos disponíveis, recorrendo à riqueza da linguagem, ao universo gramatical, a todas as faces oferecidas pelas palavras, que são arduamente lapidadas, como uma pedra bruta antes de se transformar em diamante. Sem disposição para este trabalho exaustivo, o escritor não logrará sucesso.

O processo de criação de um poema leva em conta as sonoridades, pulsações e ritmos que o poeta deseja alcançar, a imagética que ele pretende reproduzir, as significações que devem ser elaboradas. É como selecionar os mais aproveitáveis entre inúmeros grãos que serão escolhidos pelo chefe de cozinha e, posteriormente, depurados e consumidos. Dependendo do momento em que a poesia é gerada, seu autor pode estar em êxtase, optando inconscientemente por esta ou aquela frase, ou totalmente consciente de suas escolhas.

O bom poema é inesgotável, oferece sempre ao leitor novas leituras, diferentes pontos de vista, sentidos os mais diversos, bem como várias sonoridades e imagens. Os versos podem ser mínimos, sugerindo amplas significações, muito próprios da estética do Modernismo, ou longos e extensos. Portanto, alguns primarão por algo sintético, mais condensado; outros, pela verborragia.

Os versos se apresentam sempre inseridos em grupos conhecidos como estrofes. Estas podem ser compostas pela mesma métrica de sílabas poéticas – as homogêneas - ou apresentar medidas distintas – as heterogêneas. Alguns poemas revelam uma divisão silábica mais formal e rigorosa, quase matemática, perfeitamente rimada, como os clássicos.

Já os modernistas optam por uma informalidade maior, adotando os versos livres ou brancos. É importante ter em mente que as sílabas poéticas não coincidem necessariamente com as gramaticais, pois o que vale aqui é o som, não o estilo gráfico da poesia.

A liberdade dos versos elaborados pelos modernistas não rouba do poema sua sonoridade, a estrutura rítmica, pulsações e tons que podem ser percebidos claramente ao se interpretar em voz alta a poesia em questão. Também não se pode dispensar dos autores modernistas o quesito técnica, pois suas obras foram elaboradas tão arduamente quanto as produzidas no período clássico.

Fontes:
Amaral, Emília; Severino, Antônio; Patrocínio, Mauro Ferreira do. Novo Manual Nova Cultural. Nova Cultural e Círculo do Livro, São Paulo, 1996.