Arte gótica

Mestre em História da Arte (Unicamp, 2019)
Bacharel e licenciado em História (USP, 2004)

O termo “arte gótica” é uma expressão depreciativa, oriunda da expressão italiana maniera degli goti que significa “ao modo dos godos”, numa referência ao conceito de barbárie, imperfeito ou incivilizada que foi usada por artistas do Renascimento como Rafael Sanzio (1483-1520) e Giorgio Vasari(1511-1574), que buscavam enaltecer a tradição clássica em detrimento da produção artística do medievo.

Desse modo, a expressão se consagrou posteriormente, sendo incorporada pelos historiadores ao longo do século XIX e se relaciona ao que foi produzido entre meados do século XII e o início do século XVI, portanto, situada entre a chamada arte românica (século X ao XII) e o Renascimento (século XV ao XVI).

Vale dizer que, no contexto da estética romântica, no século XIX, houve uma retomada dos elementos estilísticos do medievo e daí uma releitura conhecida como um renascimento gótico, o gothic revival, influenciando pintura, escultura, arquitetura e a literatura na Europa.

Duomo di Milano. Foto: Lucas Martins / InfoEscola

Identifica-se reforma da abadia de Saint-Denis pelo abade Suger, localizada ao norte de Paris entre 1135 e 1144 e a partir dos elementos ali desenvolvidos (paredes mais finas sustentadas por contrafortes, janelas mais amplas com vitrais decorados, arcos ogivais que elevaram significativamente a altura das naves), sua produção se espalhou de norte para o sul na França e foi além de suas fronteiras, atingindo Inglaterra, Alemanha, Flandres, Península Ibérica e Itália.

O período relacionado à arte gótica tem como característica marcante a expansão das cidades e da atividade comercial, momento que a burguesia se destaca enquanto nova categoria social, por outro lado, é o momento da da construção de grandes igrejas catedrais e do surgimento das universidades enquanto centros de produção de conhecimento no meio urbano.

As esculturas passaram a ter seu volume gradativamente desconectado das paredes e colunas, tornando-as mais independentes, como nos pórticos da catedral de Chartres e de Reims, favorecendo o trabalho com a plasticidade, o movimento e o naturalismo. Já os capitéis retomam as ordens clássicas, sem narrativas.

Na produção de livros pelos scriptoria, as iluminuras se desenvolveram com maior ornamentação (motivos florais e geométricos), acompanhados de miniaturas e ampla riqueza de detalhes, seja pelas formas, seja pelos pigmentos e materiais utilizados. Um grande destaque foi o atelier dos irmãos Limbourg que produziram o famoso livro iluminado “As Ricas Horas do Duque de Berry”.

As pinturas caracterizavam-se pela linearidade: figuras alongadas, fundo dourado com folhas de ouro, tendo o enquadramento que remetia às estruturas arquitetônicas do período. A partir do século XIV, o trabalho com o espaço foi recuperando elementos outrora trabalhados na Antiguidade, como a perspectiva.

Nave da catedral de Salysbury. Foto: Jianbi Chen / iStock.com

Dada a importância dada a luz no interior das igrejas, retomando a ideia de que “Deus é luz”, a luz natural passou a ser um elemento agregado aos vitrais, oferecendo a clarificação do ambiente e inúmeras narrativas, cujas imagens estavam desenhadas em inúmeros fragmentos de vidro colorido, presos em caixilhos de chumbo.

O aprimoramento das técnicas arquitetônicas permitiu a elaboração de paredes mais altas e finas, ocupadas com amplos vitrais como as rosáceas nas catedrais ou a Sainte Chapelle construída por Luís IX para abrigar relíquias trazidas do Oriente durante as Cruzadas, transformando-se num suntuoso relicário de vidro colorido.

Fontes:

BRACONS, José. A Arte Gótica. Coleção Saber Ver. São Paulo: Editora Martins Fontes,1992.

PANOFSKY, Erwin. A arquitetura gótica e o Pensamento Escolástico. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1992.

SIMSON, Otto von. A catedral gótica: origens da arquitetura gótica e o conceito medieval de ordem. Lisboa: Editorial Presença, 1991.

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