Gambiarras evolutivas

Mestre em Ecologia e Evolução (Unifesp, 2015)
Graduada em Ciências Biológicas (Unifesp, 2013)

Na natureza, podemos observar diversos organismos que possuem características adequadas ao meio em que vivem, como os beija-flores e seus bicos longos, adaptados a sugar o néctar das partes mais profundas das flores. Mas, se por um lado há características que parecem ter sido meticulosamente projetadas para desempenhar uma determinada função (embora sejam fruto do processo de seleção natural, sem propósito pré-estabelecido), dada a sua perfeita adequação, outras não parecem tão perfeitas assim.

Características resultantes do processo evolutivo que parecem inadequadas, imperfeitas, prejudiciais ou ineficientes — sejam elas morfológicas ou comportamentais — vêm sendo tratadas na literatura pelo termo gambiarras evolutivas (no inglês, evolutionary kluge ou kluge), termo que tem se popularizado também entre cientistas.

Kluge é um jargão utilizado em engenharia para descrever uma peça que não é perfeitamente adequada ao seu propósito. Na engenharia, no entanto, existe um projeto por trás, sendo possível evitar gambiarras, enquanto na evolução não. Isso porque na evolução não há um propósito, ela simplesmente atua sobre a variação existente numa população, de forma em parte determinística (via seleção natural) e em parte aleatória (via mutação e deriva genética). Assim, organismos são cheios de “gambiarras”, guardando resquícios de mudanças acumuladas durante milhões de anos de história evolutiva.

O olho humano constitui um excelente exemplo de gambiarra evolutiva. Os nervos que ligam as células fotossensíveis ao cérebro saem pela frente do olho e não da parte de trás — o que pareceria ser mais lógico, já que dessa forma se projetam no campo de visão do olho.

Outro exemplo bastante conhecido de uma característica que parece totalmente inadequada é o nervo laríngeo recorrente das girafas, que liga o cérebro à laringe. Embora os dois órgãos estejam a uma curta distância um do outro, nas girafas este nervo, que é compartilhado por todos os tetrápodes existentes, faz um caminho muito mais longo: ele segue por todo o pescoço até contornar o arco aórtico próximo ao coração e voltar, pois evoluiu a partir de uma condição ancestral que fazia caminho equivalente, porém na ausência de um longo pescoço.

Nervo laríngeo recorrente de uma girafa percorre um longo caminho desnecessário, resultado de gambiarras evolutivas. Ilustração: Dr Bug (Vladimir V. Medeyko) / via Wikimedia Commons / CC-BY-SA 2.0

Podemos citar também o caso dos gastrópodes (grupo que inclui os caracóis, lesmas etc.), que defecam próximo à cabeça. Isso ocorre porque durante o processo de formação da concha, ela sofre uma torção que é particularmente útil para sua proteção. No entanto, isso acaba por também submeter o trato digestivo desses animais a esta torção, de forma que o ânus termina localizado acima da sua cabeça. Se organismos fossem resultantes de um projeto, certamente tais características “bizarras” não existiriam.

Referências:

Brodie, R. Virus of the Mind: The New Science of the Meme. Hay House. 2009.

Marcus, G. Kluge: The Haphazard Construction of the Human Mind. Houghton Mifflin. 2008.

Ridley, Mark. Evolução. 3ª Edição. Porto Alegre: Artmed. 2006

Wedel. M. A monument of inefficiency: The presumed course of the recurrent laryngeal nerve in sauropod dinosaurs. Acta Palaeontologica Polonica. 2012.

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