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Leptospirose Bovina

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A leptospirose bovina é uma doença infecciosa causada por bactérias do gênero Leptospira. Nos rebanhos brasileiros, sua principal consequência são as falhas reprodutivas: perda de embriões, repetição de cio, abortos e nascimento de bezerros fracos. Muitas vezes a infecção não causa nenhum sinal visível. Como é uma zoonose, também pode passar para as pessoas que lidam com o gado.

Histórico

A forma grave da leptospirose humana foi descrita pelo médico alemão Adolf Weil em 1886, e por isso ainda é chamada de doença de Weil. A bactéria só foi identificada como causa em 1915, quase ao mesmo tempo, no Japão, por Inada e Ido, e na Alemanha, por Uhlenhuth e Fromme.

O agente

As leptospiras são bactérias finas e espiraladas (espiroquetas), com cerca de 0,1 µm de espessura e de 6 a 20 µm de comprimento. As pontas costumam ter forma de gancho. Elas se movem com agilidade graças a dois flagelos internos, que ficam entre a parede e a membrana externa da célula. São aeróbias e de crescimento lento em laboratório, o que exige meios de cultura especiais.

Leptospira interrogans

Leptospira interrogans

A classificação mudou bastante. Até os anos 1980, o gênero tinha só duas espécies: L. interrogans, que reunia as patogênicas, e L. biflexa, que reunia as de vida livre. Com as técnicas de DNA, essas espécies foram desmembradas em várias outras, e hoje são reconhecidas mais de 60, divididas em patogênicas e saprófitas. Na prática veterinária, porém, continua muito usada a classificação sorológica, em sorovares (são cerca de 300) e sorogrupos, porque é dela que dependem os exames e as vacinas.

Hospedeiros de manutenção e acidentais

Para entender a doença, é preciso diferenciar dois tipos de hospedeiro.

Hospedeiros de manutenção são aqueles em que um sorovar está adaptado. O animal se infecta facilmente, quase não adoece e elimina a bactéria pela urina ou pelas secreções genitais por muito tempo. O bovino é o hospedeiro de manutenção dos sorovares do sorogrupo Sejroe, principalmente Hardjo e, nas Américas, Guaricura. Esses são os mais importantes no Brasil.

Hospedeiros acidentais são os que se infectam com sorovares adaptados a outras espécies. Nesse caso, a doença tende a ser aguda e aparecer em surtos. Os bovinos podem ser infectados assim por sorovares como Pomona (mantido por suínos), Grippotyphosa e Icterohaemorrhagiae (mantido por ratos). Pessoas também são hospedeiros acidentais.

Transmissão

As leptospiras saem do corpo do animal infectado principalmente pela urina. Entram em outro animal pelas mucosas da boca, do nariz e dos olhos ou pela pele com feridas, e às vezes amolecida pela água. A contaminação pode ser direta, pelo contato com urina, restos de placenta, fetos abortados ou sêmen, ou indireta, pela água, pela lama e por pastagens contaminadas.

Os sorovares adaptados ao bovino, como o Hardjo, colonizam o trato genital de vacas e touros e também se transmitem pela cobertura e pela inseminação com sêmen contaminado. Por isso, sua presença no rebanho depende pouco do clima.

Já as infecções acidentais dependem muito do ambiente. As leptospiras sobrevivem por semanas em água parada, lama e solo úmido, sobretudo em regiões quentes e chuvosas, mas morrem rapidamente com a secagem, o congelamento e a luz do sol. Roedores, suínos e animais silvestres são as principais fontes nesse caso.

Sinais clínicos

Forma aguda

É menos comum e mais associada a sorovares acidentais. Aparece principalmente em bezerros, com febre, anemia, urina escura (hemoglobinúria), icterícia e, às vezes, morte. Em vacas em lactação, pode haver queda brusca da produção, com leite amarelado ou com sangue e úbere flácido. Também ocorrem abortos em qualquer fase da gestação.

Forma crônica reprodutiva

É a forma mais frequente e a que causa mais perdas. As vacas parecem sadias, mas o rebanho apresenta:

  • repetição de cio e mais doses de sêmen por prenhez;
  • morte embrionária precoce;
  • abortos, em geral no terço final da gestação;
  • natimortos, bezerros fracos e retenção de placenta.

Como os sinais são inespecíficos, o problema costuma ser percebido só pelos índices reprodutivos do rebanho, e é preciso diferenciá-lo de outras causas de aborto, como a brucelose.

Diagnóstico

O exame mais usado é a soroaglutinação microscópica (SAM), que mede os anticorpos contra um painel de sorovares. Nos casos agudos, títulos altos confirmam a infecção. Na forma crônica, a interpretação é difícil, porque muitas vacas que eliminam a bactéria têm pouco ou nenhum anticorpo. Por isso, a sorologia serve melhor para avaliar o rebanho do que o animal isolado.

Para identificar animais portadores, usa-se a PCR, que detecta o DNA da bactéria na urina, no muco cervicovaginal ou em tecidos de fetos abortados. A cultura da bactéria é o método de referência, mas é demorada e pouco usada na rotina. Também existem testes como o ELISA e a imunofluorescência.

Tratamento

Os antibióticos ajudam a reduzir abortos e a eliminação da bactéria. Uma dose única de estreptomicina (25 mg/kg, por via intramuscular) costuma eliminar o estado de portador renal. A oxitetraciclina, do grupo das tetraciclinas, e outros antibióticos também são usados. O tratamento deve ser prescrito pelo veterinário, respeitando o período de carência do leite e da carne.

Controle e prevenção

Não existe uma medida que resolva sozinha. O controle combina vacinação, tratamento dos portadores e manejo:

  • Vacinação: é a medida mais barata e essencial. As vacinas contêm bactérias inativadas de vários sorovares e protegem apenas contra os sorovares incluídos, por isso precisam conter os que circulam na região. Em geral, a vacinação é feita a cada seis meses, com uma dose antes da estação de monta. A vacina reduz os problemas reprodutivos, mas nem sempre impede que a vaca se torne portadora.
  • Manejo: evitar o acesso do gado a açudes, brejos e poças; controlar roedores; não criar bovinos junto com suínos; manter limpas as áreas de ordenha e de parto.
  • Reprodução: usar sêmen de centrais que controlam a doença e examinar animais antes de introduzi-los no rebanho.

Nos rebanhos infectados por Hardjo, a erradicação é praticamente impossível. O objetivo é manter os prejuízos sob controle.

Risco para as pessoas

Ordenhadores, vaqueiros, veterinários e trabalhadores de frigoríficos podem se infectar pelo contato com urina e secreções do gado. Respingos de urina no rosto durante a ordenha são uma via conhecida. Botas, luvas e cuidado com fetos e placentas reduzem o risco. Febre, dor no corpo e dor na panturrilha depois desse tipo de exposição merecem atendimento médico.

Referências

  • RADOSTITS, O. M. et al. Clínica veterinária: um tratado de doenças dos bovinos, ovinos, suínos, caprinos e equinos. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002. p. 874-887.
  • JUNQUEIRA, J. R. C.; ALFIERI, A. A. Falhas da reprodução na pecuária bovina de corte com ênfase para causas infecciosas. Semina: Ciências Agrárias, Londrina, v. 27, n. 2, p. 289-298, 2006.
  • Merck Veterinary Manual. Leptospirosis in Ruminants.
  • World Organisation for Animal Health. Leptospirosis.
  • Ministério da Saúde. Leptospirose.
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