Literatura fantástica

Mestra em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP, 2012)
Graduada em Letras (PUC-SP, 2008)

Publicado em 21/02/2019

O termo fantástico vem do latim phantasticus cuja etimologia tem sua origem no grego phantastikós que significa fantasia. A Idade Média com suas narrativas míticas e fantásticas é solo fértil para o desenvolvimento e a difusão do gênero. A configuração geográfica da Europa do século XVIII com seus castelos góticos e sombrios e a vegetação gélida e escura cria um cenário narrativo ideal para as histórias fantásticas.

De acordo com os estudos de H. P. Lovecraft, o surgimento da literatura fantástica coincide com o nascimento da própria ideia de produção literária. Desde os povos primitivos, as narrativas orais já são povoadas de elementos sobrenaturais que posteriormente originam as lendas. A partir do momento que a literatura vai deixando de ser puramente oral e passa a ser uma modalidade escrita, as lendas passam a ser o elemento primordial dos escritos sagrados.

Motivadas pela perseguição cristã aos hereges e às bruxas, as lendas começam a expandir suas histórias para além das temáticas sagradas e religiosas e são alimentadas com a criação de inúmeros personagens: demônios, bruxas, dragões, monstros, objetos mágicos, animais encantados, vampiros, seres fantasmagóricos, dentre outros.

Essa transposição entre o sagrado e o profano cria novos gêneros vinculados ao fantástico. Os famosos contos de fadas, as figuras folclóricas, os romances de horror, os romances góticos e os contos maravilhosos, histórias que abordam os elementos sobrenaturais como se fossem naturais e, portanto, não são questionados na trama pelos personagens e nem pelo leitor.

A partir da década de 1970, a literatura fantástica começa a ser objeto de estudo mais profundo da crítica literária. O estudioso Tzevtan Todorov publica Introdução à Literatura Fantástica, obra que apresenta uma das funções fundamentais do gênero fantástico: a hesitação entre a realidade e a fantasia que a narrativa deve provocar no leitor.

No século XX, Jean-Paul Sartre atualiza o conceito de literatura fantástica a partir da análise das obras de Maurice Blanchot e Franz Kafka. Para Sartre, o fantástico contemporâneo difere do tradicional por não colocar de forma antagônica o que é real e o que é imaginário. A literatura fantástica contemporânea tem seu alicerce no conceito de absurdo, os personagens não enfrentam os medos e os horrores contidos no desbravar de castelos e florestas, o medo agora reside, muitas vezes, no enfrentamento de um mundo real, mas que está às avessas. O caos da vida moderna é que imprime nas histórias a atmosfera fantástica.

Sendo tradicionais ou contemporâneos, muitos escritores produzem obras que contribuem legitimamente com o gênero fantástico. E mesmo os autores com tendências fantásticas colaboram com o resgate e os novos contornos das narrativas. Para citar alguns exemplos:

  • Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll;
  • A igreja do Diabo, conto de Machado de Assis com tendências fantásticas;
  • A metamorfose, Franz Kafka;
  • Animais Fantásticos e Onde Habitam, J. K. Rowling;
  • As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis;
  • Macunaíma, livro de Mário de Andrade com tendências fantásticas.

Referências:

Carmo, Aguinaldo Adolfo do. Considerações sobre o Fantástico na Literatura. Disponível em: <https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/5106115.pdf>. Acesso em 22 dez. 2018.