Movimento dos Caifazes

Mestre em História (UFAM, 2015)
Graduado em História (Uninorte, 2012)

Esta instituição, a mais reprovada pela atual civilização, pela moral e pela justiça precisa ser extinta onde quer que exista. Parece-nos que presentemente só o Brasil é que mantém tal instituição; e por isso, nós brasileiros que presamos a dignidade da pátria e da humanidade, não devemos descansar um momento em apressar a abolição dos escravos”. (A Redempção: 6 jan. 1887)

O Movimento dos Caifazes, de caráter profundamente antiescravista, pode ser pensado a partir do contexto da efervescência política na luta relacionada à questão escravista, desenvolvida entre diferentes setores da sociedade brasileira na segunda metade do século XIX. De origem paulista, articulado nos anos 1880, o movimento defendia a abolição imediata da escravidão. Para veicular suas ideias lançou, em 1887, o jornal “A Redempção – Folha Abolicionista, Comercial e Noticiosa” onde apresentava as várias dimensões da discussão compartilhada por toda a sociedade brasileira. Liderados pelo promotor público Antônio Bento de Sousa, seu principal objetivo, além da luta política pela abolição da escravidão, era facilitar a fuga e a emancipação de escravos. Os caifazes organizaram várias operações de evasão, enviando negros fugidos para os quilombos mantidos por abolicionistas. O movimento se conectava a uma articulação complexa denominada de Movimento Abolicionista, oficializado nos anos 1879 por vários simpatizantes, incluindo seu maior difusor, Joaquim Nabuco. A agenda do movimento defendia o fim do sistema escravagista e a emancipação negra.

Tal movimento deve ser pensado como parte de um processo lento e gradual pela abolição da escravidão no Brasil que se iniciou décadas antes, em 1831, com a Lei Feijó que declarava livre todos os escravos que chegassem ao Brasil. A partir disso, outras leis foram criadas e constituíram um conjunto que foi denominado por muitos pesquisadores da temática como “leis para inglês ver”, já que suas diretrizes foram desenvolvidas sobre pressões externas e nunca plenamente cumpridas, servindo apenas como demonstração do aparente interesse do Império Brasileiro na libertação de seus escravos. Tais legislações mascaravam interesses nas relações comerciais com os ingleses, justificando a criação de normas como a Lei Eusébio de Queiroz (1850), Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários ou Lei Saraiva Cotegipe (1885), textos de caráter profundamente contraditórios.

A segunda metade do século XIX foi palco de debates político-ideológicos na esfera mais proeminente da intelectualidade brasileira. Um dos fundamentos do discurso antiescravista era de que a escravidão representava o atraso da civilização. Deste modo, o abolicionismo representava a gênese da modernização do Brasil frente à Europa. Ao mesmo tempo, indicava a necessidade de modificação do modo de produção que fundamentavam a economia brasileira, baseado no latifúndio agroexportador, característico de um passado colonial recente que não dialogava com as tendências universalistas do pensamento ilustrado.

Por outro lado, não se pode pensar o movimento abolicionista somente a partir das bases intelectuais. A Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel, em 1888, e considerada por muitos como um ato benevolente do Império deve ser pensada como resultado de uma série de articulações políticas iniciadas na própria base dos movimentos abolicionistas, quer seja, no protagonismo cotidiano de milhares de negros que sobreviveram às atrocidades cometidas contra suas pessoas. Fugas, assassinatos, omissões, manifestações públicas, compra de alforrias, dentre outras atividades devem ser tomadas como parte de uma luta diária que evidencia o protagonismo dos negros na história do país.

Deste modo, é preciso observar que a Abolição da Escravidão, no Brasil, foi um fenômeno histórico complexo, onde o abolicionismo fez parte de uma dinâmica que envolvia instituições políticas, espaços públicos e clandestinidades em plena Modernidade. O movimento dos Caifazes como movimento social evidencia um processo histórico importante na História do Brasil e representa uma das dimensões da luta de milhares de negros na busca pela liberdade.

Fonte e Ilustração:

2º Edição do Jornal A Redempção – folha abolicionista, comercial e noticiaria, publicado em São Paulo, no dia 6 de janeiro de 1887. Repositório Digital da hemeroteca do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Disponível em: http://200.144.6.120/uploads/acervo/periodicos/jornais/BR_APESP_IHGSP_003JOR50800.pdf; Acesso em: 6 dez. 2017.

Referências:

ALONSO, Angela. O abolicionismo como movimento social. Novos Estudos, n. 100, p. 115-137, nov. 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/nec/n100/0101-3300-nec-100-00115.pdf; Acesso em: 6 dez. 2017.

FERREIRA, Joyce. O(s) uso(s) de documentos de arquivo na sala de aula: proposta de sequência didática. Universidade Federal de São Paulo. Disponível em: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/site/assets/difusao/pdfs/ABOLICIONISMO_Joyce_Ferreira.pdf; Acesso em: 6 dez. 2017.

NACIONAL, Biblioteca. Para uma história do negro no Brasil. Catálogo de exposições. Ministério da Cultura, Rio de Janeiro, 1988. Disponível em: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon1104317/icon1104317.pdf; Acesso em: 6 dez. 2017.

OLIVEIRA, Isabel Cristina Borges de. Vocabulário controlado sobre escravidão, abolição e pós-abolição: a representação dos conceitos. Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa, 2015. Disponível em: http://www.memoriaescravidao.rb.gov.br/pdf/VocabularioControlado.pdf; Acesso em: 6 dez. 2017.