Guerras na pré-história

Mestrado em História (UDESC, 2012)
Graduação em História (UDESC, 2009)

Falar sobre guerras no período pré-histórico não é tarefa fácil, especialmente quando falamos dos povos nômades. O nomadismo foi a forma de vida de boa parte dos grupos humanos antes da Revolução Agrícola e do processo de sedentarização. Só depois, com as Revoluções Urbanas, é que os povos passaram a desenvolver códigos de comunicação, desenvolvendo o pensamento matemático e a escrita.

Por isso, quando queremos conhecer mais sobre os povos pré-históricos precisamos recorrer aos estudos de arqueólogos e paleontólogos. Os nômades não deixaram nenhum rastro escrito e por isso o estudo dessas sociedades é feito por meio de escavações e análise do material encontrado. Ossadas, utensílios e ferramentas são encontrados e a partir deles é possível compreender um pouco como viviam os homens e mulheres nômades.

Já os debates sobre a existência de guerras entre grupos neste período são controversos. Enquanto há estudiosos que afirmam não ser possível defender a ideia de guerras entre eles, outros estudos apontam a existência de mortes de grupos por violência.

É o caso de um grupo de arqueólogos da Universidade de Cambridge. Eles pesquisaram ossadas e utensílios encontrados no Quênia, na região do Lago Turkana. Em suas escavações encontraram crânios que, segundo suas análises, apresentam marcas de morte por violência, notadamente ataques na cabeça com uso de lâminas, sendo este ataque o motivo do óbito. Ao total foram encontrados restos mortais de 27 pessoas, enterradas juntas, que se acredita que foram mortas em situação de guerra/batalha entre grupos, durante o período conhecido como Idade da Pedra.

Crânio de Paranthropus boisei, espécie de hominídeo, encontrado no lago Turkana (Quênia). Cientistas estimam que a ossada tenha aproximadamente 1,6 milhão de anos. Foto: Adam Jan Figel / Shutterstock.com

Encontrar indícios da vida de homens e mulheres em um tempo tão distante não é muito comum. A maioria das pistas que nos levam a conhecer esse passado tão remoto se encontra no continente africano. Para se ter uma noção, o fóssil mais antigo foi encontrado na Etiópia, região próxima ao Quênia.

O grupo de pesquisadores da Universidade de Cambridge acredita que o que resultou nas mortes violentas por eles identificadas pode ter sido um ataque premeditado de um grupo em busca dos recursos abundantes da região de Nataruk, próximo às margens do Lago Turkana. A região era abundante em recursos hídricos e por isso havia muito alimento disponível para coleta.

O que é possível afirmar é que foram encontradas ossadas com sinais de morte por violência, com utilização de ferramentas pontiagudas. Além disso, há a interpretação de que houve um ataque de um grupo contra outro, possivelmente pela disputa de recursos da região. Os corpos não estavam enterrados de forma organizada ou que demonstrasse qualquer tipo de ritual, levando a crer que foram deixados ali de qualquer forma pois eram mortes resultantes de batalhas. Um feto de 8 meses no ventre de uma mulher, que foi encontrado neste mesmo local, é outro indício que leva a crer que houve uma batalha entre os grupos.

Acredita-se que a violência faça parte da condição humana. Por isso não é tão difícil encontrar e atestar mortes por violência em ossadas pré-históricas. No entanto, é difícil atestar se houve, efetivamente, confrontos de guerra entre grupos nômades durante o período que chamamos de pré-história. Os debates sobre a existência de guerras no período pré-históricos ainda seguem sem conclusão unânime por parte dos arqueólogos. No entanto sabe-se que grupos humanos de caçadores e coletores disputavam alimentos e território.

Referência:

LAHR, M. Mirazón; RIVERA, F.; POWER, R. K.; MOUNIER, A.; COPSEY, B.; CRIVELLARO, F.; EDUNG, J.E.; MAILLO FERNANDEZ, J. M.; KIARIE, C.; LAWRENCE, J.; LEAKEY, J.; MBUA, E.; MILLER, H.; MUIGAI, A.; MUKHONGO, D. M.; VAN BAELEN, A.; WOOD, R.; SCHWENNINGER, J-L.; GRÜN, R.; ACHYUTHAN, H.; WILSHAW, A.; & FOLEY, R. A. Inter-group violence among early Holocene Hunter-gatherers of West Turkana, Kenya. In: Nature. Volume 529, 2016.

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