Homo habilis

Mestre em História Comparada (UFRJ, 2020)
Bacharel em História (UFRJ, 2018)

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Homo habilis é considerada uma das mais antigas espécies de hominina do gênero homo. Viveu aproximadamente entre 1,5 e 2,5 milhões de anos no leste da África, possivelmente migrando para o oriente próximo.

Seus primeiros vestígios fósseis foram encontrados em 1959, na Garganta de Olduvai (imagem abaixo), Tanzânia, um importante sítio arqueológico no Vale do Rift africano. A descoberta foi realizada pela equipe britânico-queniana liderada por Mary Leakey (1913-1996) e Louis Leakey (1903-1972).

Garganta de Olduvai. Foto: mwanasimba / CC-BY-SA

Na época de sua descoberta o consenso científico era de que o Homo Erectus seria o mais antigo homo ancestral do Homo Sapiens. Desta forma, somente cinco anos depois, em 1964, os antropólogos Louis Leakey, Phillip Tobias (1925-2012) e John Napier (1917-1987) divulgaram a descoberta.

Os cientistas afirmaram se tratar de uma espécie do gênero homo mais antiga que o Homo Erectus, intermediário entre este e o Australopithecus. Além dos fósseis encontrados em Olduvai, outros vestígios atribuídos ao Homo habilis foram encontrados, como nos sítios arqueológicos Koobi Fora (1972), no Quênia e no Vale do Zarqa (2019), Jordânia.

Características

Réplica do fóssil de um crânio de Homo habilis. Foto: Gunnar Creutz / via Wikimedia Commons / CC-BY-SA 4.0

O Homo habilis era completamente bípede e poderia medir entre 1,0m e 1,4m. Seu crânio, significantemente maior que o do Australopithecus, tinha um tamanho entre 500 e 800 cm³, indicando um cérebro maior. De uma maneira geral sua morfologia era similar à de seu antecessor, com braços mais longos. Porém, o pescoço, a mandíbula e os dentes eram menores. Estas e outras diferenças fizeram os pesquisadores o definirem no gênero homo, o que ainda é uma discussão. Sua dieta incluía vegetais, sementes e restos de animais.

Seu nome, Homo habilis ou homem habilidoso¸ foi escolhido porque os cientistas encontraram junto a pedras lascadas e acreditavam ser esta espécie a primeira a construir ferramentas. A partir de novas descobertas, porém, pesquisadores chegaram à conclusão que uso de ferramentas não era uma exclusividade dos homininas do gênero homo, tampouco poderia ser um critério para o surgimento do homo.

Pesquisadores encontraram objetos que atendiam a vários tipos de propósitos como o corte de pequenas plantas, cortar o couro e retirar a carne de carcaças de grandes animais (necrofagia).

Dentre os objetos estão seixos (pedras) talhados, objetos pontiagudos e em formato de disco, além da construção de abrigos. Os objetos feitos pelo homo habilis são geralmente relacionados às culturas líticas olduvaienses, entretanto, outras espécies ancestrais também fizeram ferramentas enquadradas sob esta denominação.

Novas descobertas, controvérsias e divergências

A princípio os pesquisadores acreditavam que o Homo erectus teria sido o primeiro a migrar para outros continentes além do Africano. Esta narrativa foi contestada por pesquisadores da Universidade de São Paulo em 2015, quando estes descobriram ferramentas de pedra lascada provavelmente feitas por um tipo de Homo habilis na Jordânia, datadas entre 1,9 e 2,5 milhões de anos atrás. Estes vestígios indicam que possivelmente esta espécie foi a primeira do gênero homo a sair de África.

Outros fósseis foram atribuídos, ainda que sem consenso, ao Homo habilis. Como é o caso do Homo rudolfensis. Todavia, os pesquisadores ainda não chegaram a um consenso se os exemplares podem ser alocados na mesma espécie ou se são duas diferentes.

Desde sua descoberta até o ano 2000 acreditava-se que o Homo habilis era um precursor direto do Homo erectus, dando lugar a este quando foi extinto. Entretanto, evidências apontam que estas duas diferentes espécies de homininas viveram em épocas contemporâneas.

Paleoantropólogos ainda divergem sobre diversos aspectos do Homo habilis, desde a sua organização social especial quanto a capacidade comunicativa e o domínio de símbolos, geralmente relacionados ao Homo erectus.

Leia também:

Referências bibliográficas:

KI-ZERBO, Joseph et al. História Geral da África, Vol. I: Metodologia e pré‐história da África. UNESCO, 2010.

LEAL, Elaine. Descoberta de ferramentas de pedra lascada na Jordânia leva à reinterpretação dos rumos da evolução humana. Setor de Ciências da Terra, UFPR. 08 de Julho de 2019. Disponível em: http://www.terra.ufpr.br/portal/blog/2019/07/08/descoberta-de-ferramentas-de-pedra-lascada-na-jordania-leva-a-reinterpretacao-dos-rumos-da-evolucao-humana/. Acesso em: 10/09/2021.

NEVE, Walter. A SAGA da Humanidade -- Aula 7 (Homo Habilis). Publicado pelo Canal USP [S. l.; s. n]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=l5GHKjdoiqU. Acesso em: 13/09/2021

RIGHTMIRE, G. Philip. Homo habilisEncyclopaedia Britannica. 12 de novembro de 2020. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Homo-habilis. Acesso em: 08/09/2021