Invasões holandesas no Brasil

Mestre em História (UFAM, 2015)
Graduado em História (Uninorte, 2012)

A defesa geopolítica das possessões portuguesas na América se constituiu como base do desenvolvimento colonial. Para além da criação de um sistema de exploração de recursos e mão de obra de negros e índios, o fortalecimento do poderio militar para defesa da região foi fundamental. A criação das Capitanias Hereditárias (1534) pode ser tomada como exemplo elucidativo dessas estratégias. Dentre os colonizadores europeus que cobiçavam a região, os holandeses podem ser tomados como agentes particulares.

No contexto de crise religiosa que modificava o mapa geopolítico europeu, por consequência das Reformas Protestantes, os holandeses representavam um entrave ao poderio católico, particularmente por se constituir como estado protestante iminente. Desde a Guerra dos 80 Anos ou Revolta Holandesa (1568-1548) frente à Espanha, os holandeses lutaram pela independência. Isto lhes permitiu um crescimento econômico significativo por conta do comércio marítimo que se processou no Mundo Moderno a partir do Mercantilismo. Apesar dos conflitos entre protestantes e católicos, os holandeses desenvolveram intensas relações comerciais com os portugueses, especialmente no comércio do açúcar brasileiro, exportado em larga escala para a Europa. Em fins do século XVI, Portugal se viu submetida à Coroa espanhola, por uma relação denominada União Ibérica (1580-1640). Como consequência, suas relações com a Holanda se desgastaram profundamente. Para evitar prejuízos ao comércio açucareiro, os holandeses passaram a invadir as possessões lusas tanto na América quanto na África.

Em 1624, os holandeses invadiram o Brasil pela Bahia e ali se estabeleceram até 1625. Intentaram outra invasão, desta vez a Pernambuco (1630). Dali passaram a conquistar diversas capitanias em direção ao litoral norte colonial. Conquistaram, respectivamente, Paraíba (1634), Rio Grande do Norte (1634), Capitania Real do Ceará (1637) e São Luís, capital do Estado do Maranhão (1641), da qual foram expulsos em 1644. O mais conhecido comandante holandês foi Maurício de Nassau que governou o chamado Brasil Holandês entre 1637 e 1644. Seu governo, com capital em Recife, estabeleceu uma administração baseada no incentivo à produção de açúcar; busca pela liberdade religiosa; modernização; criação de um jardim botânico e zoológico. Nassau também ficou conhecido por ser um importante articulador político.

Conhecidos como “ousados lobos dos mares”, os holandeses estabeleceram importantes relações comerciais na região do delta amazônico (entre os estados do Amapá e Pará). Desde fins do século XVI, holandeses e indígenas fortaleceram relações econômicas que duraram até meados do século XVII. Através do escambo, os holandeses trocavam tabaco, algodão, pescados, quelônios, urucum, madeiras e muitos outros produtos locais por machados, tesouras, contas de vidro, bebidas, armas de fogo, roupas e tudo o mais que agradassem aos índios.

Os conflitos entre portugueses, holandeses e indígenas pela posse dos territórios coloniais durou até 1654 quando os holandeses foram definitivamente expulsos. Alguns consideram que a presença holandesa na América se caracterizou apenas por um processo de invasão das colônias portuguesas. No entanto, deve-se ter em mente que as relações estabelecidas entre holandeses e indígenas nas regiões do delta amazônico se constituiu por processos econômicos que não foram abalados nem mesmo pelos sangrentos conflitos no litoral nordestino. Deste modo, a presença holandesa nas colônias portuguesas deve ser vista de modo relacional, a depender do lugar e das relações estabelecidas.

Bibliografia:

FERNANDES, Fernando Roque. O teatro da guerra: índios principais na conquista do Maranhão (1637-1667). Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Amazonas, 2015. 167p. Disponível em: http://ppgh.ufam.edu.br/attachments/article/197/Fernando_Fernandes_Dissert_2015.pdf; Acesso em: 19 set. 2017.

MEIRELES, Mário Martins. Holandeses no Maranhão: 1641 – 1644. São Luís: PPPG, Ed. Universidade Federal do Maranhão, 1991.

HULSMAN, Lodewijk & GUZMAN, Décio. Swaerooch: o comércio holandês com índios no Amapá (1600-1615). Revista Estudos Amazônicos, v. 6, n. 1, p. 178-202, 2011. Disponível em: http://www.ufpa.br/pphist/estudosamazonicos/arquivos/artigos/1%20-%20VI%20-%208%20-%202011%20-%20Lodewijk_Hulsman.pdf; Acesso em: 19 set. 2017.

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