Sequestro do embaixador Charles Elbrick

Mestre em Educação (UFMG, 2012)
Especialista em História e Culturas Políticas (UFMG, 2008)
Graduada em História (PUC-MG, 2007)

Charles Burke Eubrick foi um diplomata norte-americano que atuou como embaixador no Brasil entre os anos de 1969 e 1970. Nesse contexto, o Brasil vivia um período de intensa perseguição aos oponentes da ditadura militar iniciada em 1964.

O MR-8

A partir de fins de 1968, o Governo Costa e Silva editou o AI-5, dispositivo que abriu caminho para um longo período de repressão aos movimentos sociais, estudantis e políticos. A intensificação da repressão, por outro lado, fez surgirem mais organizações de luta armada contra a ditadura.

Um desses grupo foi o Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), formado por membros de um grupo formado no contexto do Golpe de 64, a Dissidência do Rio de Janeiro. O nome foi mudado a partir de 1967, quando Che Guevara foi capturado na Bolívia na data que deu nome ao grupo. Sob forte perseguição, poucos membros resistiram formando a Dissidência da Guanabara (DI-GB) que, na ocasião do sequestro do embaixador norte-americano, se autodenominou novamente como MR-8.

O sequestro

Buscando superar a censura aos meios de comunicação que omitiam, na maioria das vezes, os atos de repressão dos militares, Cid Benjamin e Franklin Martins elaboraram o plano que consistia no sequestro do embaixador Charles Elbrick, em troca do qual exigiriam a leitura de um manifesto em rede nacional e a libertação de companheiros presos nos porões da ditadura, dentre eles Vladimir Palmeira, líder estudantil cujo desejo de libertação motivou Franklin a ideia inicial do sequestro.

Assim, observando que o embaixador seguia rigorosa rotina, o grupo tomou de assalto seu carro, um Cadillac, no bairro de Botafogo, na capital carioca. Entretanto, houve uma série de ações anteriores que garantiram o sucesso da operação, dentre elas a participação da Aliança Libertadora Nacional (ALN), cuja experiência era cara aos estudantes de classe média que compuseram grande parte do grupo. Contando com as orientações de Joaquim Câmara Ferreira, líder da organização, o plano teve também a participação de Virgílio Gomes da Silva, comandante militar das ações da ALN.

Na tarde do dia 4 de setembro o grupo surpreendeu o carro que transitava pela rua Marques. O motorista teve seu rosto coberto e foi abandonado com o carro em uma rua próxima. No carro, os militantes deixaram o manifesto que deveria ser lido em rede nacional.

No documento, o grupo afirmava a autoria do sequestro de Elbrick e integra o ato a uma série de ações realizadas por grupos similares na luta pela derrubada da ditadura. Além disso, o grupo também exigiu a libertação de quinze prisioneiros políticos que deveriam ser transportados de avião para a Argélia, Chile ou México (país este que os recebeu), e a leitura da carta-manifesto na íntegra nos principais veículos de comunicação do país.

No prazo de 48 horas, expresso no documento, os militares aceitaram a proposta. Após a chegada dos companheiros ao México, o grupo libertou Elbrick no dia 6 de setembro, próximo ao Maracanã. Na ocasião, grande multidão se encontrava nas ruas, devido ao jogo de futebol que havia terminado pouco antes. Dessa forma, o grupo dispersou-se na multidão. Apesar de conhecer o local do cativeiro, a polícia optou por não colocar em risco a vida do embaixador, empreendendo, posteriormente, uma dura perseguição aos integrantes do grupo que levou a captura de vários dentre eles.

Bibliografia:

BUENO, Eduardo. Os anos de chumbo. In: Brasil: uma História: cinco séculos de um país em construção. Rio de Janeiro: Leya, 2012, p. 402-417.

PAES, Maria Helena Simões. Em nome da Segurança Nacional: do golpe de 64 ao início da abertura. São Paulo: Atual, 1995.

SCHWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. No fio da navalha: ditadura, oposição e resistência. In: Brasil: uma biografia. São Paulo: Cia das Letras, 2015, p. 437-466.

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