Mal de Cadeiras

Mestre em Ciência Animal (UFG, 2013)
Graduada em Medicina Veterinária (UFG, 2010)

A tripanossomíase causada pelo protozoário Trypanosoma evansi (T. evansi) é conhecida popularmente como “Mal das Cadeiras”, “Surra” ou “Doença das ancas”. Acomete mamíferos domésticos e selvagens, contudo em 2005 a doença foi diagnosticada no ser humano e, em 2009, a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) a inseriu no rol de doenças de notificação obrigatória.

Trypanosoma evansi . Foto: Mohamed Ridha Rjeibi, Taoufik Ben Hamida, Zara Dalgatova, Tarek Mahjoub, Ahmed Rejeb, Walid Dridi and Mohamed Gharbi. Via Wikimedia Commons / CC-BY-SA 4.0

Transmissão e ciclo de vida

A enfermidade está presente em regiões tropicais e subtropicais, como o norte da África, o sudeste da Ásia, Américas Central e do Sul, entretanto tem-se relatos no mundo todo. A doença é transmitida por vetores biológicos (insetos e morcegos hematófagos), fômites e também há relatos na literatura de transmissão pela via oral. As áreas de climas mais quentes e úmidos favorecem a ação dos vetores e, dessa forma, no Brasil, a região norte tornou-se endêmica.

O ciclo de vida do T. evansi demanda dois hospedeiros, porém não há desenvolvimento no vetor. Após sua inoculação no mamífero, o tripanossoma atinge a corrente sanguínea, onde se multiplica e se dispersa para a linfa e líquido cefalorraquidiano. A magnitude dos sinais clínicos variam conforme a espécie acometida e a vulnerabilidade do indivíduo. Os equinos e os caninos são os hospedeiros mais sensíveis à doença, já as capivaras atuam como reservatórios naturais.

Sintomas

Em geral, na fase aguda observa-se febre, letargia, emaciação, edema abdominal ou nas extremidades e alterações hemostáticas. A anemia é uma característica marcante da doença, em razão de o agente infeccioso induzir uma destruição acelerada dos eritrócitos. Na fase terminal da doença ocorrem as alterações neurológicas da incoordenação motora como paresia e quedas espontâneas durante a locomoção.

Em bovinos, a tripanossomíase em questão pode ocorrer de forma subclínica, o que infere em prejuízos econômicas. O rebanho leiteiro apresenta uma queda na sua produtividade, tem-se altas taxas de mortalidade no gado de corte e as fêmeas reprodutoras manifestam abortos e diminuição na taxa de prenhez. A doença além de acarretar em descarte de animais, predispõe a outras infecções e também à falha vacinal, devido aos efeitos imunossupressores causados pelo parasita.

Diagnóstico

O diagnóstico de Mal das Cadeiras pode ser feito por meio de técnicas direta ou indireta. O primeiro consiste na visualização, por microscopia óptica, do T. evansi em esfregaços sanguíneos corados com Giemsa, porém a OIE recomenda os seguintes testes: imunofluorescência para detecção de anticorpos (IFAT), ensaio imunoenzimático de detecção de anticorpos ou antígenos específicos (ELISA), teste de aglutinação em cartão (CATT/T. evansi), desenvolvido especificamente para detecção de anticorpos contra o T. evansi e o teste de Tripanólise (IT), que é de alta sensibilidade, porém grande complexidade.

Tratamento

Existem drogas tripanocidas disponíveis para o tratamento dos animais acometidos como acetazato de diminazeno, cloreto de isometamídio, quinapiramina, suramina ou cimelarsanmas. Porém a escolha pelo tratamento ou não, dependerá do nível de acometimento dos animais e das condições econômicas do pecuarista. Sabe-se que a tripanossomíase pode ser endêmica e seu controle é extremamente complexo, devido ao envolvimento de diferentes hospedeiros animais em seu ciclo, principalmente os silvestres, que não podem ser controlados ou monitorados.

Prevenção

Não existe vacina contra o Mal das Cadeiras, mas costuma-se utilizar estratégias de quimioprofilaxia e o controle dos vetores, que inclui o uso de substâncias eliminatórias de insetos, ovos e larvas em armadilhas, ou colocados diretamente na pele dos animais. O uso experimental da curcumina, um pigmento encontrado no rizoma do açafrão, tem sido alvo de pesquisas na prevenção e no tratamento da tripanossomíase e os resultados demonstraram efeitos promissores. Os animais de laboratório, que receberam curcumina antes da infecção, apresentaram maior resistência contra a doença, devido a ação antiinflamatória e imunomodulatória da molécula.

É notório que a enfermidade em questão gera impactos na saúde dos animais e perdas socioeconômicas, porém necessita-se de maior divulgação e conscientização da problemática dessa doença. É preciso maiores investimentos em pesquisas, para se alcançar um método eficiente de tratamento e controle dessa zoonose.

Referências:

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Trypanosoma evansi e Trypanosoma vivax: biologia, diagnóstico e controle. Roberto Aguilar Machado Santos Silva et al. Corumbá: Embrapa Pantanal, 2002.

AREGAWI, W. G. et al. Systematic review and meta-analysis on the global distribution, host range, and prevalence of Trypanosoma evansi. Parasites & vectors, vol.12, 1-67, 2019.

Marc. D. et al. Trypanosoma evansi and Surra: A Review and Perspectives on Origin, History, Distribution, Taxonomy, Morphology, Hosts, and Pathogenic Effects. BioMed Research International, vol. 2013, 1-22, 2013. https://doi.org/10.1155/2013/194176.

REIS, D. M. et al. Tratamento com curcumina em ratos infectados com Trypanossoma evansi. IN: XIX Seminário Interinstitucional de Ensino, Pesquisa e Extensão da Unicruz. Universidade de Cruz Alta. 2014.

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