A Peste Suína Clássica (PSC), também chamada de febre suína ou cólera dos porcos, é uma doença viral muito contagiosa que afeta porcos domésticos e javalis. Pode matar a maioria dos animais de um rebanho e não tem tratamento. Não é transmitida ao ser humano, mas causa enormes prejuízos à suinocultura e bloqueia exportações de carne suína.
Por isso, é uma doença de notificação obrigatória. No Brasil, qualquer suspeita deve ser comunicada imediatamente ao serviço veterinário oficial do estado.
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Agente causador
A PSC é causada por um vírus de RNA envelopado do gênero Pestivirus, família Flaviviridae. É parente próximo do vírus da diarreia viral bovina. Pela análise genética, as amostras do vírus são divididas em três genótipos (1, 2 e 3), cada um com vários subgenótipos. Essa classificação ajuda a rastrear a origem de um surto.
A doença foi descrita pela primeira vez nos Estados Unidos, no século XIX. A comprovação de que se tratava de um vírus veio no início do século XX.
Peste suína clássica e peste suína africana
As duas doenças têm sinais clínicos muito parecidos, mas são causadas por vírus diferentes. A peste suína africana (PSA) é causada por um vírus de DNA da família Asfarviridae, não tem vacina e se espalhou pela Ásia e pela Europa a partir de 2018. O Brasil teve PSA entre 1978 e 1981 e foi declarado livre dela em 1984. Como só o laboratório distingue uma da outra, toda suspeita exige coleta de amostras.
Transmissão
A principal via de infecção é a oronasal, ou seja, pela boca e pelo nariz, no contato direto entre porcos ou com secreções, fezes, sangue e urina de animais infectados. O vírus também viaja em caminhões, roupas, botas, equipamentos e, principalmente, em restos de comida com carne suína contaminada. Por isso é proibido alimentar porcos com lavagem que contenha produtos de origem animal.
Javalis e porcos asselvajados funcionam como reservatório do vírus. A alta densidade de animais nas granjas facilita a propagação. Uma porca infectada durante a gestação pode transmitir o vírus aos fetos.
O período de incubação vai de 2 a 14 dias, geralmente entre 3 e 7 dias.
Como o vírus age no organismo
O vírus se multiplica primeiro nas tonsilas e depois se espalha pelo sangue. Ataca as células que revestem os vasos sanguíneos (células endoteliais), os macrófagos e as células do sistema linfoide. O dano aos vasos explica as hemorragias e a trombose típicas da doença.
Quando a infecção ocorre na gestação, o vírus prejudica a formação dos órgãos do feto. O resultado pode ser aborto, natimortos, fetos mumificados ou leitões com malformações. Alguns leitões nascem aparentemente saudáveis, mas infectados para sempre, e eliminam o vírus por meses.
Sinais clínicos
A gravidade depende da idade do animal e da virulência da cepa. Existem três formas principais.
Forma aguda
É a mais conhecida. Os porcos apresentam febre alta (acima de 40,5 °C), apatia, perda de apetite e tendência a se amontoar. Há leucopenia, isto é, queda acentuada no número de glóbulos brancos. Em animais de pele clara aparecem manchas avermelhadas, hemorragias e coloração arroxeada (cianose) nas orelhas, no focinho, no abdômen e na face interna das pernas. Também são comuns conjuntivite, constipação seguida de diarreia, andar cambaleante e convulsões. Em leitões, a mortalidade pode chegar a 90% ou mais.
Forma crônica
Os animais têm febre, melhoram por um tempo e depois voltam a adoecer, com perda de peso, diarreia e problemas respiratórios. Podem sobreviver por semanas ou meses, sempre eliminando o vírus.
Forma leve ou subclínica
Em porcos adultos e com cepas pouco virulentas, a doença pode passar quase despercebida. O problema aparece na reprodução, com abortos e leitegadas fracas.
Diagnóstico
Como a PSC se confunde com a peste suína africana e com outras doenças hemorrágicas, o diagnóstico é sempre laboratorial e feito em laboratórios oficiais. Hoje, a técnica de RT-PCR, que detecta o material genético do vírus, é a mais usada por ser rápida e sensível, e é recomendada pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA).
O isolamento do vírus em cultivo celular ainda serve como confirmação, mas é demorado. Como o vírus não destrói as células cultivadas, são usados anticorpos marcados, em técnicas de imunofluorescência, para revelar sua presença. O teste ELISA é útil para pesquisar anticorpos em grandes populações. As amostras mais usadas são sangue, tonsilas, baço, linfonodos e rins.
Prevenção e controle
Não há tratamento. O controle se baseia em impedir a entrada do vírus e eliminar focos rapidamente. Quando um foco é confirmado, as medidas incluem o sacrifício sanitário de todos os suínos da propriedade, a limpeza e desinfecção das instalações, a investigação das granjas ligadas ao foco e a restrição do trânsito de animais e produtos suínos na região.
Existem vacinas atenuadas, feitas com o vírus vivo enfraquecido, como a amostra chinesa (cepa C). Elas protegem bem, inclusive porcas prenhes, mas a maioria não permite diferenciar animais vacinados de infectados. Isso atrapalha a vigilância e o comércio internacional. Já existem vacinas "marcadoras", que permitem essa distinção. No Brasil, a vacinação contra a PSC é proibida.
Situação no Brasil
Desde 2016, a OMSA reconhece no Brasil uma zona livre de PSC que reúne os principais estados produtores, como Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Nessa zona a vacinação é proibida e a vigilância é permanente. Fora dela, a doença ainda ocorre. Houve focos em estados do Nordeste, como Ceará, Piauí e Alagoas, a partir de 2018.
As ações de prevenção fazem parte do Programa Nacional de Sanidade Suídea, do Ministério da Agricultura e Pecuária. Na prática, a biosseguridade da granja é a principal defesa. Isso inclui cercas, controle de visitas, banho e troca de roupa na entrada, cuidado com caminhões e nenhum contato com javalis.
Referências
- Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH). Classical swine fever.
- Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH). African swine fever.
- Ministério da Agricultura e Pecuária. Sanidade suídea.
- MSD Veterinary Manual. Classical Swine Fever.
Texto originalmente publicado em https://www.infoescola.com/medicina-veterinaria/peste-suina-classica/