Por que cães e gatos comem plantas

Mestre em Ciência Animal (UFG, 2013)
Graduada em Medicina Veterinária (UFG, 2010)

O consumo de plantas, principalmente grama ou capim, é um hábito que pode ser observado em cães e gatos saudáveis. Esse comportamento não está necessariamente associado a doenças ou deficiências alimentares, mas herdado de seus ancestrais, canídeos e felídeos selvagens. Sugere-se que esses e também outras espécies de animais silvestres, ao serem acometidos por parasitas ou transtornos intestinais, ingeriam algumas plantas para promover o aumento da motilidade do tubo digestivo e eliminar assim os elementos prejudiciais.

Com o estreitamento da relação entre os seres humanos e os animais domésticos, os tutores passaram a se preocupar mais com a saúde de seus pets, o que incluiu a procura por vacinas, vermífugos e alimentos mais saudáveis, visando a prevenção de doenças. Dessa forma, houve uma considerável evolução na dieta desses animais, o que impulsionou o mercado de alimentos industrializados (rações, petiscos).

Consequentemente, foi oportuno o desenvolvimento de estudos voltados para a nutrição, para que se pudesse suprir as necessidades específicas de cada espécie, raça, porte, faixa etária e também de determinadas doenças crônicas, como as metabólicas, as nefropatias, as cardiopatias e a obesidade. Com isso foi necessário um maior controle da qualidade da matéria prima, dos níveis de corantes e aditivos químicos utilizados, bem como a incorporação de ingredientes funcionais, prebióticos, probióticos, antioxidantes e outros.

Diferentemente dos herbívoros, o trato gastrointestinal (TGI) dos carnívoros não é adaptado para digerir as fibras ou os carboidratos estruturais presentes nas plantas. Nos polissacarídeos e na lignina, entre as moléculas de glicose, estão presentes ligações químicas do tipo "beta", que não podem ser hidrolisadas pelo TGI dos cães e dos gatos; entretanto, elas são importantes para a formação do bolo fecal e no auxílio do peristaltismo gastrointestinal, por isso algumas fibras, encontradas em alimentos específicos são inseridas nas rações dos animais, porém em quantidades adequadas para não provocarem injúrias.

Já as fibras solúveis induzem uma fermentação no cólon resultando na produção de ácidos graxos de cadeia curta ou ácidos graxos voláteis, que são elementos relevantes no controle da proliferação de bactérias prejudiciais à microbiota local. Além disso, essas fibras reduzem a taxa de esvaziamento gástrico o que provoca a saciedade; elas também promovem a redução das taxas sanguíneas de glicose, triglicerídeos e colesterol, o que é fundamental para os animais acometidos por enfermidades metabólicas.

Interessantemente, os dados de algumas pesquisas científicas mostraram que a maioria dos cães e dos gatos que ingeriam plantas não estavam acometidos por transtornos gastrointestinais, não vomitavam após a ingestão das mesmas e nem havia indícios de que o ato seria uma forma inconsciente de incorporação de fibras na dieta.

Outra observação obtida cientificamente foi que os animais mais jovens ingeriam plantas com uma frequência superior aos adultos, e em nenhum deles foi constatado o vômito após a ingestão, ou sinais de doença prévia. Na natureza, também foi percebido esse maior índice em filhotes, porém a causa se dava em decorrência de os mesmos serem mais acometidos por infecções parasitárias, do que os adultos.

A predominância da ingestão de plantas pelos filhotes, especialmente os cães, também pode ocorrer devido ao comportamento hiperativo, explorador e curioso desses animais, ou pela avidez pela mordedura durante a troca da dentição. Entretanto, deve-se atentar para que eles não alcancem plantas tóxicas, pois dependendo da quantidade ingerida, pode ser fatal. Algumas plantas ornamentais, facilmente acessíveis são: Comigo-ninguém-pode (Dieffenbachia picta Schott), Copo de leite (Zantedeschia aethiopica Spreng) e Samambaia (Nephrolepis polypodium) e elas provocam a morte por asfixia.

Dessa forma, concluiu-se que os animais comem plantas ou grama, principalmente, por instinto ou curiosidade e em poucos casos, por transtorno gastrointestinal.

Referências

Sueda KLC, Hart BL, Cliff KD. Characterisation of plant eating in dogs. Appl Anim Behav Sci. 111:120-132, 2008.

Roque NC, et al. Utilização da fibra na nutrição de cães. Boletim Agropecuário. Universidade Federal de Lavras. Lavras. n70:1-13p. 2006.

Hart BL, Hart LA. Your Ideal Cat: Insights into Breed and Gender Differences in Cat Behavior. West Lafayette, IN: Purdue University Press. 147p. 2013.

Santos et al. Plantas ornamentais tóxicas para cães e gatos presentes no nordeste do Brasil. Medicina Veterinária, Recife, v7(1):11-16p, 2012.

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