Pretérito mais-que-perfeito do indicativo

Graduada em Letras-Português (USP, 2011)

No pretérito, os fatos expressos pelos verbos apresentam ocorrência anterior ao momento da enunciação. Ou seja, em orações em que há ações expressas no pretérito, temos referência a algo que aconteceu antes do momento da fala. Com relação ao pretérito mais-que-perfeito, seu emprego indica, principalmente, uma ação anterior a outra já passada, mas admite outros contextos de utilização, como veremos adiante.

Há duas formas de representá-lo: simples ou composto. Em sua forma simples, o pretérito mais-que-perfeito do indicativo é expresso pelas desinências –ra, -ras, -ra, -ramos, -reis, -ram (falara, beberas, partira, faláramos, bebêramos, partíramos etc.). Já em sua forma composta, é indicado pelo verbo auxiliar ter acrescido do particípio do verbo principal (tinha falado, tinha bebido, tinha partido etc.).

Vejamos alguns exemplos de usos do pretérito mais-que-perfeito em suas duas formas:

Forma simples (desinência –ra)

O mar tornara-se tão revolto que o menino se afogou.
(o mar tornou-se revolto antes de o menino se afogar)

Quando olhei para trás, o fogo consumira boa parte da vegetação do terreno.
(O fogo consumiu a vegetação antes de eu olhar para trás)

Bebera a garrafa inteira; caiu quase morto na calçada.
(Bebeu a garrafa inteira antes de cair na calçada)

Forma composta (verbo auxiliar ter + particípio do verbo principal)

Chegou a época das chuvas e o inverno rigoroso já tinha tornado os dias mais escuros.
(O inverno tornou-se rigoroso antes da chegada da época das chuvas)

Quando conquistou a fortuna, já tinha bebido do vinho amargo da vergonha.
(Bebeu do vinho amargo da vergonha antes de conquistar a fortuna)

A viúva tinha consumido boa parte dos bens no vício do jogo, quando perdeu o filho mais novo.
(Consumiu boa parte dos bens antes de perder o filho mais novo)

Cancelaste as passagens quando já tínhamos pagado o hotel.
(O hotel foi pago antes do cancelamento das passagens)

A forma composta do pretérito mais-que-perfeito, em geral, é a preferencialmente utilizada.

O pretérito mais-que-perfeito pode apresentar outras possibilidades de uso, conforme veremos nos exemplos a seguir:

a) Fato vagamente situado no passado – não tão precisamente expresso:

Fizera fortuna, comprara o carro do ano, casara e tivera filhos, mas nada nele mudara por dentro.

b) Pode ser usado para atenuar um pedido, expressando um fato passado com relação ao presente:

Ele tinha vindo para convencê-lo de que quer ajudá-lo. Não seja orgulhoso!

c) Pode aparecer em substituição ao futuro do pretérito, sobretudo em linguagem literária:

“Um pouco mais de sol – e fora (=teria sido) brasa” (Mario de Sá-Carneiro)

d) Também em linguagem literária, pode ocorrer em substituição ao pretérito imperfeito do subjuntivo:

Sê propícia para mim, socorre
Quem te adora, se adorar pudera (=pudesse)!
(Alphonsus de Guimaraens)

e) O emprego do pretérito mais-que-perfeito também ocorre em frases exclamativas:

Quisera eu ter a vida que tens!

Tomara que chova no verão!

A conjugação dos verbos regulares no pretérito mais-que-perfeito segue os seguintes paradigmas:

Forma simples

Verbo andar (-ar, 1ª conjugação)
1ª pessoa – singular Eu andara
2ª pessoa – singular Tu andaras
3ª pessoa – singular Ele/ela andara
1ª pessoa – plural Nós andáramos
2ª pessoa – plural Vós andáreis
3ª pessoa – plural Eles/elas andaram

 

Verbo receber (-er, 2ª conjugação)
1ª pessoa – singular Eu recebera
2ª pessoa – singular Tu receberas
3ª pessoa – singular Ele/ela recebera
1ª pessoa – plural Nós recebêramos
2ª pessoa – plural Vós recebêreis
3ª pessoa – plural Eles/elas receberam

 

Verbo surgir (-ir, 3ª conjugação)
1ª pessoa – singular Eu surgira
2ª pessoa – singular Tu surgiras
3ª pessoa – singular Ele/ela surgiras
1ª pessoa – plural Nós surgíramos
2ª pessoa – plural Vós surgíreis
3ª pessoa – plural Eles/elas surgiram

 

Forma composta

 

Verbo andar (-ar, 1ª conjugação)
1ª pessoa – singular Eu tinha andado
2ª pessoa – singular Tu tinhas andado
3ª pessoa – singular Ele/ela tinha andado
1ª pessoa – plural Nós tínhamos andado
2ª pessoa – plural Vós tínheis andado
3ª pessoa – plural Eles/elas tinham andado

 

Verbos receber e fugir
(-er / -ir, 2ª e 3ª conjugações), respectivamente
1ª pessoa – singular Eu tinha recebido / fugido
2ª pessoa – singular Tu tinhas recebido / fugido
3ª pessoa – singular Ele/ela tinha recebido / fugido
1ª pessoa – plural Nós tínhamos recebido / fugido
2ª pessoa – plural Vós tínheis recebido / fugido
3ª pessoa – plural Eles/elas tinham recebido / fugido

Bibliografia:

CUNHA, C.; CINTRA, L. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 6ª ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2013. 800 p.

CEGALLA, D. P. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. 48ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional. 2009. 696 p.

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