Coesão e coerência textual

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)
Graduação em Letras (Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, FUNCESI)

Um texto é uma unidade de sentido. Nessa perspectiva, é imprescindível que as ideias, nele presentes, sejam construídas com lógica, isto é, com coerência. Além disso, os elementos que o integram (palavras, orações, frases, períodos) precisam estar dispostos de modo articulado e harmônico. Quando há adequada ligação entre os referidos elementos, dizemos que ocorreu coesão.

A coerência textual

O produtor do texto precisa construir textos que tenham coerência, ou seja, que tenham sentido. Por outro lado, o ouvinte/leitor precisa interpretar o texto, reconstruindo a coerência pretendida pelo produtor. Nessa perspectiva, a comunicação concretiza-se quando há a interação entre os envolvidos com o ato de interlocução. Para entender melhor a coerência, leia este texto, escrito por Ricardo Ramos:

Circuito Fechado

Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos.

O que podemos dizer a respeito do texto acima? Qual sentido podemos atribuir a ele? Repare que o texto se constrói por meio da enumeração de objetos que fazem parte do dia a dia de um homem. Não há nenhum verbo no texto. Porém, podemos inferir que cada um desses objetos aponta para uma ação do cotidiano do homem. As referidas ações são apresentadas, de modo sequencial, desde o momento em que ele se levanta. Por que “Circuito fechado”? Porque essas ações são inerentes ao seu cotidiano. Nesse cenário, ele não pode fugir delas. Em suma, quando se atribui sentido a um texto, se atribui coerência ao texto.

A coesão textual

Vamos analisar os elementos que atuam na coesão do texto abaixo? Então, leia-o:

Curiosidade – Papagaios não falam, apenas imitam sons

Os papagaios não conseguem se comunicar com as pessoas, mas são capazes de imitar sons. A estrutura do bico e da língua permite a reprodução do que ouvem, como palavras e assobios.

Isso é possível porque essas aves têm controle da siringe – órgão localizado na traqueia, equivalente às cordas vocais humanas. Na natureza, aprendem a imitar o que escutam para trocar informações com outros pássaros de sua espécie.

A habilidade de reprodução varia, dependendo da personalidade e do incentivo do dono para que o bicho reproduza os sons. Importante saber que se trata de um animal silvestre e só é considerado legal quando comprado em criadouros registrados no Ibama.

Fátima Pires. Disponível em: <http://www.rankbrasil.com.br/Recordes/Noticias/0xua/Curiosidade_Papagaios_Nao_Falam_Apenas_Imitam_Sons>. (Com cortes).

Vários elementos ligam as ideias que formam o texto sobre os papagaios, tornando-o coeso. Primeiramente, podemos destacar a desinência verbal. Em “Papagaios não falam, apenas imitam sons”, o sujeito da segunda oração aparece oculto, mas pode ser identificado pela desinência verbal (terminação verbal). Isso significa que os leitores inferem que o verbo “imitam” se refere ao sujeito “Papagaios”. Com o uso da desinência verbal, a autora do texto retoma o sujeito, sem repeti-lo. Esse recurso linguístico foi empregado em outras partes do texto, como em “Importante saber que se trata de um animal silvestre e só é considerado legal quando comprado em criadouros registrados no Ibama.”

No segmento “Isso é possível porque essas aves têm controle da siringe [...]”, o pronome demonstrativo “Isso” desempenha a função de retomar uma informação no primeiro parágrafo. Na passagem “[...] com outros pássaros de sua espécie”, o pronome possessivo “sua” retoma “Os papagaios”. Vale acrescentar que “essas aves” estabelece uma relação hiponímica com “Os papagaios”. Na oração “[...] o bicho reproduza os sons.”, a autora empregou a expressão “o bicho” para atuar também no processo de retomada.

É importante ressaltar a presença dos chamados “conectores”, que atuam, conforme o nome indica, na conexão das ideias textuais. Entre eles, destacam-se as conjunções que estabelecem diferentes relações de sentido. No parágrafo inicial, há as conjunções coordenativas “mas” e “e”. Já no último parágrafo, há as conjunções subordinativas “para que” e “quando”. Em suma, variados recursos linguísticos são usados para assegurar a continuidade do texto, de modo que ele se torne compreensível.

Como um quebra-cabeça...

Podemos estabelecer uma analogia entre a montagem de um quebra-cabeça e a construção de um texto. Observe que, para se formar a imagem do coração, foi necessário encaixar cada uma das variadas peças. Cada uma ocupa o seu devido lugar e, juntas, elas compõem um todo significativo, a imagem. Com o texto também é assim! Cada elemento linguístico une-se a outro de maneira articulada, formando uma unidade significativa, tendo em vista a intenção comunicativa.

Para concluir:

A coerência é a lógica entre as ideias expostas em um texto, que precisam ser dispostas de forma interligada, isto é, com coesão. Isso significa que não há coerência sem coesão. Vale reforçar que quem diz precisa produzir textos coerentes e coesos, ao passo que quem ouve ou lê precisa reconstruir os elos pretendidos pelo produtor, para que a interação de fato aconteça.

Referências:

ANTUNES, Irandé. Coesão textual. In: Glossário Ceale. Disponível em: <http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/coesao-textual>. Acesso em: 22 de novembro de 2019.

COSTA VAL, Maria da Graça. Texto, Textualidade de Textualização. In: CECCANTINI, J. L. Tápias; PEREIRA, Rony F; ZANCHETTA JR., Juvenal. Pedagogia Cidadã: cadernos de formação: Língua Portuguesa. v.1. São Paulo: UNESP, Pró-Reitoria de Graduação, 2004, p.113-128.

LOPES, Maria Angela Paulino Teixeira. Coesão textual. In: Glossário Ceale. Disponível em: <http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/coerencia-textual>. Acesso em: 22 de novembro de 2019.

PIRES, Fátima. Curiosidade – Papagaios não falam, apenas imitam sons. Disponível em: <http://www.rankbrasil.com.br/Recordes/Noticias/0xua/Curiosidade_Papagaios_Nao_Falam_Apenas_Imitam_Sons>. Acesso em: 28 de novembro de 2019.

RAMOS, Ricardo. Circuito Fechado. In: ___Os melhores contos brasileiros de 1973. Porto Alegre: Globo, 1974.

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