Conto

Doutorado em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (PUC-Rio, 2013)
Mestrado em Linguística, Letras e Artes (PUC-Rio, 2008)
Graduação em Jornalismo (PUC-Rio, 2001)

O conto é um texto narrativo curto centrado em um relato referente a um fato ou memória. Sua origem remonta aos tempos antigos, representado pelas narrativas orais dos antigos povos nas noites de luar, narradas de pais para filhos, como forma de assegurar a transmissão da cultura e, dessa forma, a sobrevivência da espécie. Por meio da identificação com os atos dos personagens, em torno de quem as narrativas se organizam, os ouvintes aderiam afetiva, moral, e intelectualmente às mesmas.

Em termos estruturais, o texto oral tradicional se organiza a partir da voz de um locutor, que dirige seu discurso a um auditório, assumindo, simultaneamente, os papeis de autor, narrador e transmissor do discurso narrativo.

Da tradição oral surgiram todas as vertentes de narrativas, passando pela tradição da Antiguidade Clássica, lendas orientais, parábolas bíblicas, novelas medievais italianas, fábulas e contos de fadas, todas contendo um caráter moral intrínseco, materializado na eterna batalha do bem contra o mal, mas não necessariamente piegas e tampouco moralizante.

Com o advento do Naturalismo, em fins do século XIX, as convenções morais das classes mais abastadas começariam a ser, de certo modo, contestadas, embora elas próprias tenham passado por algumas modificações. Nesse período, autores como o russo Anton Tchekhov e o francês Guy de Maupassant recheavam seus contos de tipos amorais, que nem sempre recebiam castigo pelas más ações perpetradas, e quando o recebiam era apenas por conta de relações causais, inexistindo qualquer ideia de purificação. Entusiastas das doutrinas cientificistas, em voga na época, os escritores naturalistas buscavam mostrar em suas obras que os atos dos seres humanos não eram guiados por sistemas morais, mas, unicamente, pelos desígnios da natureza, a priori indiferentes a qualquer tipo de moral.

A partir desse período, observa-se também o surgimento de contos fantásticos destinados ao público adulto, o que não deixa de ser um fenômeno curioso, uma vez que nos séculos anteriores o gênero fantástico manifestava-se quase exclusivamente na literatura infantojuvenil. Nessa vertente, destaca-se a obra do norte-americano Edgar Allan Poe, mestre da narrativa sobrenatural e de mistério. Posteriormente, já no século XX, observa-se as obras do tcheco Franz Kafka e do argentino Jorge Luís Borges, o primeiro especialista em elaborar narrativas cujos personagens deparam-se com situações absurdas e pouco usuais, e o segundo adotando um diálogo intertextual com a tradição literária universal. Outros autores ainda investiriam nos gêneros policial e de ficção científica.

Os contos apresentam, em geral, poucos personagens, foco narrativo em 1ª ou 3ª pessoa, e a apresentação de uma sequência de acontecimentos que constituem o enredo, que apresenta-se de forma condensada e sintética, centrado em um único conflito. Esse atributo cria o efeito conhecido como unidade de impressão, que norteia toda a narrativa, estimulando no leitor múltiplos sentimentos, como admiração, espanto, medo, desconcerto e surpresa, entre outros.

Pelo caráter de fragmento, o conto precisa causar um efeito mais direto no leitor do que, por exemplo, o romance ou a novela, gêneros narrativos mais longos. Essa peculiaridade levou alguns escritores a afirmarem sua superioridade em relação às narrativas mais longas. Segundo Machado de Assis: “O tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias. É naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos”.

Já o argentino Júlio Cortázar, outro mestre das narrativas curtas, sintetiza bem esse espírito quando afirma, em analogia com o Boxe, que “O romance vence sempre por pontos, enquanto o conto deve vencer por nocaute”.