Anacoluto

Por Paula Perin dos Santos
Leia este trecho da obra de Rubem Braga:

“Eu, porque sou mole, você fica abusando”.

Observe que o pronome “eu” encontra-se solto na frase, sem estabelecer uma relação sintática com nenhum dos outros termos, já que houve uma troca entre o pronome “eu” e “você”.

Neste exemplo temos um caso de anacoluto, figura de linguagem que consiste na quebra da estrutura sintática da oração. Segundo Douglas Tufano, o tipo de anacoluto mais comum é aquele em que um determinado vocábulo parece que vai ser o sujeito da oração, mas de repente a construção frasal se modifica e ele acaba sem função sintática.

“E a menina, para não passar a noite só, era melhor que fosse dormir na casa de uns vizinhos”. (Rachel de Queiroz)

Geralmente essa figura é utilizada para dar ênfase à pessoa, ou idéia, que consideramos mais importante numa determinada situação. O uso dessa figura também é muito utilizado na linguagem oral.

Veja outros exemplos de anacoluto:

“Eu, que era branca e linda, eis-me medonha e escura”. (Manuel Bandeira)

“O relógio da parede eu estou acostumado com ele, mas você precisa mais de relógio do que eu”. (Rubem Braga)

No primeiro exemplo, o pronome “eu”, enunciado no início, não permanece ligado sintaticamente à oração “eis-me medonha e escura; no segundo, Braga dá um destaque maior à expressão “relógio de parede”, mas ela não estabelece uma relação sintática à frase “eu estou acostumado com ele”.

Fontes
SAVIOLE, Francisco Platão. Gramática em 44 lições. 15 ed. São Paulo, Ática, 406
TUFANO, Douglas. Estudos de Língua Portuguesa – Minigramática. São Paulo, Moderna, 2007.