Catacrese

Por Paula Perin dos Santos
Leia esses versos de “Composição Estranha”, de Ronaldo Tapajós e Renato Rocha:

1. Usei a cara da lua
2. As asas do vento
3. Os braços do mar
4. O pé da montanha
5. Criei uma criatura
6. Um bicho, uma coisa
7. Um não-sei-que-lá
8. Composição estranha

Nos versos 1 e 2, ocorre uma metáfora, pois existe uma relação de similaridade entre os termos “cara” - “lua” e “asas” - “vento”. Nos versos 3 e 4, apesar de pressupor o mesmo processo metafórico, os vocábulos “braços” e “pé” foram empregados fora de seu contexto próprio apenas para suprir uma lacuna vocabular, ou seja, na falta de termos próprios, usam-se eles.

A essa figura de linguagem chamamos catacrese.

Veja outros casos onde ocorre essa figura de expressão:

- “Enterrou a espada no dorso do touro com precisão”.

Enterrar significa “introduzir algo na terra” e, por similaridade (processo metafórico), está sendo usado na frase para designar o ato de introduzir algo no corpo do animal. Entretanto, esse sentido, de tão usado, já está apagado da intuição do falante, ou seja, de tão usual, já está desgastado.

Usa-se muito dessa figura de expressão no cotidiano, para nomear coisas que não sabemos o nome específico, como “dente de alho”, “batata da perna”, “braço da cadeira”, “pé-de-mesa”, entre outras.

Fontes
PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de Janeiro, Presença, 1981, p. 102.

SAVIOLE, Francisco Platão. Gramática em 44 lições. 15 ed. São Paulo, Ática, 404-5.