Metáfora

Mestre em Linguística, Letras e Artes (UERJ, 2014)
Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFBA, 2007)

A metáfora é a mais importante figura de palavra. Nesse sentido, é válido retomar a noção de que entre o homem e a realidade objetiva existe uma mediação realizada através da linguagem. Dessa forma, é na linguagem que o homem constitui sua atuação no mundo, concretiza pensamentos e compartilha-os com a sociedade. A linguagem verbal organiza a interpretação e a compreensão feita pelos indivíduos no processo de interlocução. Dessa forma, sabemos que o ser humano faz uso de mecanismos linguísticos para expressar ideias, emoções, sentimentos e pensamentos constantemente. Retomada esta noção, entende-se a palavra como a força motriz dessa relação entre sujeito e realidade. A construção de novas realidades é potencializada pelo uso da palavra.

A multiplicidade dos significados das palavras, os diversos sentidos com que uma mesma palavra pode ser interpretada em diferentes contextos, bem como os usos variáveis que a oralidade proporciona aos falantes, remetem ao conceito de figuras de palavras. As figuras de palavras são recursos da língua que permitem mudar o sentido real de uma expressão, transpondo-a para o sentido figurado. Entre as figuras mais usadas encontram-se a metáfora e a metonímia. Elas são consideradas pelo linguista Roman Jakobson como matrizes presentes na maior parte dos enunciados e dos discursos, às vezes predominando a metáfora, por outras predominando a metonímia. A imensa maioria dos textos está repleta de figuras de palavras, sendo a metáfora a figura de maior recorrência na linguagem. Vejam os exemplos para compreender o conceito:

Seus olhos eram duas esmeraldas.

Seu olhar é um punhal a penetrar-me o peito.

Explicação: Observe que nesses enunciados tanto o substantivo “olho”, quanto a palavra “olhar” estão assemelhadas a elementos diferentes de seus significados de origem. O olho é um órgão do corpo humano, nesse caso ele se torna uma pedra por sua beleza. Enquanto o olhar é um ato, neste enunciado ele é descrito como uma ação violenta por dar a sensação de atravessar o corpo do indivíduo que é olhado. Está constituída, nessa construção linguística, a metáfora dos olhos de esmeralda.

As figuras de linguagem são caracterizadas como expressões que figuram outros significados, menos esperados pelo receptor do discurso, quebrando a significação própria de um campo de palavras. Assim, a metáfora é um mecanismo de criação de novos efeitos para informações previamente definidas, tais como a atribuição de novos sentidos para as relações entre palavras aparentemente delimitadas por seus significados. De acordo com a convenção gramatical, as palavras ligam-se umas às outras nos enunciados por similaridade (fonética, formal, semântica), e por contiguidade na sequência linear da fala, dessa maneira, um elemento não possui propriedades individuais em seu sentido e forma, mas sim uma propriedade estrutural da relação entre este elemento e outros, entre forma e sentido. Ou seja, o elemento possui significado na relação contextual com os outros elementos da frase, oração ou período em que esteja inserido. É nesta relação que surgem as metáforas.

Em resumo, a metáfora é uma figura de palavra que consiste em dizer que uma coisa é outra porque há semelhanças entre elas. Ou seja, é a identificação de dois elementos por uma semelhança, por uma característica comum, ou por aproximação. Para alguns gramáticos, a metáfora se define por uma comparação que não se explicita, sendo representada tanto pelo termo comparado, quanto pelo termo comparativo, configurando-se no ponto de comparação.

Observe o exemplo nesta simples construção: Pele de pêssego.

  • Pele: é o elemento (ou a ideia) que será definido pela alteração de seu significado original. (termo comparado)
  • Pêssego: é o elemento com o qual o primeiro se relaciona, assemelhando-se. (termo comparativo)

O resultado dessa relação é a metáfora, é o ponto da comparação entre os dois termos, porém sem deixar explícita esta relação comparativa.

A metáfora é a imagem dessa pele, a maneira como ela se caracteriza por se aproximar do elemento pêssego ela é aveludada como uma fruta.

Relembrando

A diferença entre metáfora e comparação: na metáfora um elemento é diferentemente substituído pelo outro, enquanto que na comparação há uma palavra que estabelece a ligação entre os elementos comparados.

Ocorrência da metáfora:

Define-se a metáfora como um fenômeno conceitual, um mecanismo cognitivo básico e muito utilizado. Ela ocorre quando o domínio de uma experiência é compreendido pelos termos de outro domínio. Vejamos como acontece no próximo exemplo:

Faltando um pedaço (Djavan)

O amor é um grande laço

Um passo para uma armadilha

Um lobo correndo em círculos

Pra alimentar a matilha

Comparo sua chegada

Com a fuga de uma ilha

O domínio é o elemento amor. Uma experiência que se assemelha à outra de um domínio completamente diferente; o laço. São palavras de campos de significações distintas, mas que se aproximam por uma experiência formando a metáfora; o amor é um grande laço.

O mesmo pode ser lido nessa construção: O amor é um lobo correndo em círculos pra alimentar a matilha.

O amor deixa de ser a experiência de um sentimento, de uma emoção de um ser vivo por outro e passa a ser a experiência de um animal indomesticável, o lobo. O amor torna-se um lobo correndo. Isso se dá pelo poeta tentar expressar a intensidade desse sentimento que está em um domínio da linguagem, através de uma imagem que se encontra em outro domínio. Resultando nesta metáfora que representa o sentimento amor.

Em outras palavras, o que resulta dessa construção é a projeção de um conjunto de correspondências entre um domínio-fonte e um domínio-alvo.

Metáforas do cotidiano

Algumas metáforas se tornaram comuns na linguagem do dia a dia de forma que os falantes perderam a percepção correspondente. É a construção de um caminho da linguagem que gera novos sentidos para palavras já conhecidas. Por exemplo, associamos a vida a uma viagem, o dia a uma batalha, ou ainda a vida a uma guerra. Veja nestas construções:

Hoje eu perdi a batalha, mas ainda vencerei a guerra.

Nesta longa viagem, a cada amanhecer um novo voo é possível.

Bibliografia:

CASTILHO, Ataliba T. de. Nova gramática do português brasileiro. – 1. Ed., 4ª reimpressão – São Paulo: Contexto, 2016

CITELLI, Adilson. Linguagem e Persuasão. 15. Ed., 4° reimpressão – São Paulo: Ática, 2002.

LOPES, Edward. Metáfora: da retórica à semiótica. – 2. ed. – São Paulo: Atual, 1987