Metonímia

Mestre em Linguística, Letras e Artes (UERJ, 2014)
Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFBA, 2007)

Para compreender as diferentes figuras de linguagem e suas aplicabilidades, vale retomar a noção de língua como meio potente no que se refere às relações entre sujeitos e mundo. Nesta relação sujeito–mundo, a linguagem verbal é o que viabiliza a comunicação, a interação social, a interpretação e a compreensão da realidade existente. Através da palavra atribui-se sentidos ao mundo, ao que se vê e se vivencia, bem como é com a palavra que se concretiza o pensamento. Dessa forma, a palavra é criadora. Quando são utilizados recursos de estilo, as palavras assumem novos significados e representações, logo tem-se as figuras de palavras.

Nesse sentido, a relação de sentido e a associação de ideias provocam, em determinadas situações de usos linguísticos, a substituição de um termo pelo outro. Observe quando um falante relaciona o autor de um livro à sua obra, e substitui o título pelo seu nome:

Estou lendo Machado de Assis.

Ao afirmar que está lendo o autor no lugar da obra, o falante cria uma relação de contiguidade entre o escritor e o livro escrito por ele. O que também pode ser compreendido como uma substituição de uma palavra por outra, com significados diferentes. Porém, nesta relação criada pelo processo metonímico denotam o mesmo sentido. De tal forma ocorre a substituição que o autor se torna sua obra, o objeto em si; livro.

Assim, a figura de palavra denominada metonímia, também conhecida por sinédoque, indica a utilização de um termo em lugar de outro, desde que entre eles haja uma relação de contiguidade. Para muitos estudiosos a metonímia é uma forma de manifestação da metáfora. Contudo, diferente da metáfora, o processo de formação inicial da metonímia ocorre de uma relação objetiva entre o plano de original e o plano figurativo do termo. Conforme pode ser visto no informativo à seguir:

COMUNICADO UNIVERSITÁRIO

Lembramos que a nossa universidade respeita o direito ao nome social de pessoas transgêneras, e por isso não aceitaremos situações de preconceito em nossas dependências. Após um professor se recusar a usar o nome solicitado por um aluno, que exercia seu direito ao nome social, organizamos uma semana de atividades, oficinas, mostras de artes e palestras, voltadas para a prática do respeito à diversidade e apoio à comunidade LGBTQI+. Convidamos todos os universitários, docentes e comunidade acadêmica a participar deste evento. Lembrando que:

O universitário não tem preconceito de gênero.

Neste exemplo simples o termo “universitário” está em lugar do plural “universitários”, ou seja, criou-se uma generalização através do processo metonímico.

Resumidamente, a metonímia ocorre quando há o uso de um termo em lugar de outro. Com o objetivo de construir um efeito retórico de aproximação entre cada um dos elementos. O termo no plural “universitários”, nesta construção frasal, poderia conferir um distanciamento entre os elementos envolvidos na comunicação linguística, a saber; o sujeito e o conjunto de informações a cerca deste. O sujeito no singular proporciona uma identificação de quem lê ou ouve esta afirmativa. Por exemplo, quando se diz:

O torcedor incentivou bastante a seleção brasileira durante os jogos da copa do mundo.

Todos os brasileiros irão se identificar com a frase e se sentirão sujeitos desta ação. Gera uma aproximação no conjunto integrado por sujeito e predicado.

O recurso de estilo estabelece um jogo que toca nas emoções dos envolvidos, porque o termo usado no plural distancia, enquanto que o mesmo termo usado no singular aproxima e intensifica a ideia de que sou parte de um mesmo conjunto, seja ele o de universitários, conforme o primeiro exemplo, seja ele o de torcedores, conforme o segundo exemplo.

A metonímia, em particular, aparece constantemente no discurso políticos pelo teor apelativo. É comum, por exemplo, um político iniciar seu discurso, especialmente em vésperas de eleições, com o célebre “Caro eleitor”. Ao longo de seu discurso, o termo “eleitor” é totalmente substituído por termos que o aproximem do político. Usa-se um termo parte (você/amigo) para alcançar um grupo maior, o todo (nós/conjunto/eleitores).

Há vários tipos de metonímia. Verifique alguns exemplos do que foi exeplicado anteriormente:

  • O todo pela parte: o universo em que vivemos está irrespirável.
  • O continente pelo conteúdo: hoje ele tomou todas.
  • O autor pela obra: vou ler Drummond. (em lugar do título da obra escrita pelo autor Drummond)
  • Entre causa e efeito: viver de trabalho. (em lugar de “viver do produto do trabalho”)
  • Ganhar a vida. (em lugar de “ganhar os meios para viver”)
  • O produto pela marca: vou de havaianas. (em lugar de vou de chinelo)

Bibliografia:

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. – 37. ed. rev., ampl. e atual. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009

CITELLI, Adilson. Linguagem e Persuasão. 15. Ed., 4° reimpressão – São Paulo: Ática, 2002.

CUNHA, Celso e CINTRA, Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. – 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

GARCIA, Maria Cecília. Minimanual compacto de gramática da língua portuguesa: teoria e prática – 1. ed. – São Paulo: Rideel, 2000.

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