Dêixis

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)
Graduação em Letras (Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, FUNCESI)

Segundo o professor Dr. Sérsi Bardari (2011, p.1), o termo ‘dêixis’, do qual deriva o adjetivo “dêitico”, é empregado para designar a função que os pronomes pessoais e demonstrativos, as formas gramaticais que indicam tempo, inúmeras palavras e uma variedade de outras formas linguísticas desempenham ao fazer referência à situação de produção dos gêneros textuais, sejam estes nas modalidades oral ou escrita. Em outras palavras, a dêixis abarca os mais diversificados mecanismos linguísticos incumbidos de realizar a referência aos constituintes do gênero em si, de modo a compor um todo coeso. Entende-se por “coesão”, a conexão entre os elementos supracitados, de modo articulado e harmônico. Vale elucidar que os dêiticos fazem referência, também, a elementos extralinguísticos, isto é, a elementos para além do texto, inerentes ao contexto discursivo. A seguir, discute-se a relevância dos dêiticos para o processo de comunicação, por meio de interessantes ocorrências. Primeiramente, propõe-se a análise dos elementos que estabelecem elos intralinguísticos neste texto, elaborado pela autora deste artigo:

Já era tarde da noite quando Ulisses voltou para o seu apartamento. Havia ido a uma festa na companhia de amigos. Para seu espanto, encontrou a porta aberta. Olhou ao redor e não viu nada. Ao entrar, fechou-a apressadamente. Era um rapaz muito medroso, ou melhor, cauteloso demais. Foi vistoriando a casa, tentando não fazer barulho... Poderia ser perigoso. O estranho é que ele não identificava nenhum sinal de que alguém havia ali adentrado. O que aconteceu? Será que havia esquecido a porta aberta? Quando entrou no quarto, o seu coração acelerou e ele soltou um grito ensurdecedor... Viu vultos por trás das cortinas. Quando o destemido jovem iria começar a correr, uma voz lhe disse: “Esqueceu alguma coisa?”. Ulisses foi tomado por uma fúria ao perceber que se tratava da voz de um de seus amigos. Virou-se e deparou-se com o sacana do Pedro com uma chave na mão. Ao fundo, um coro de risadas... Eram os outros, agora, “inimigos”. Os sacanas haviam roubado a sua chave e chegado antes dele à residência. De uma coisa, Ulisses tinha certeza: vai ter volta...

Perceba que são empregados diferentes termos que retomam, por repetição ou substituição, ao antecedente “Ulisses”, personagem principal do texto, formando a chamada cadeia anafórica, cuja finalidade é assegurar a progressão das ideias. Em prosseguimento, são apresentados termos que se referem a Ulisses, por meio de:

1. Pronominalização - substituição do “nome” (Ulisses) por um “pronome”:

  • Possessivos: “seu apartamento”, “seu espanto”, “seu coração acelerou”.
  • Pessoais:
    • caso reto (funciona como sujeito): “ele não identificava”, “ele soltou um grito ensurdecedor”, “chegado antes dele à residência”.
    • caso oblíquo (funciona como complemento): “uma voz lhe disse”

2. Desinências verbais (as terminações dos verbos sugerem as pessoas referentes). Observe que, em variadas vezes, foram utilizados verbos relativos à 3ª pessoa do singular (ele = Ulisses) para indicar as ações do personagem, de modo progressivo:

encontrou a porta aberta”, “Olhou ao redor e não viu nada”, “Quando entrou no quarto”, “Viu vultos atrás das cortinas”, “Virou-se e deparou-se”.

3. Nomes (substantivos acompanhados de artigos e, em um caso, de adjetivo). Perceba que, quando não se repete o nome Ulisses, são empregadas determinadas formas nominais que a ele retomam:

  • “Era um rapaz muito medroso” (artigo + substantivo)
  • o destemido jovem” (artigo + adjetivo + substantivo)
  • Ulisses foi tomado por uma fúria”
  • “De uma coisa, Ulisses tinha certeza”.

O texto acima ilustrou a ocorrência de variadas “dêixis” por referência anafórica, que faz a retomada a constituintes ditos anteriormente, os chamados “antecedentes”. Há, também, outro tipo de “dêixis”, o que faz referência a elementos extralinguísticos:

Futebol de amor

Piscou o olho
Iniciou o jogo
Pegou na mão
jogada rápida
Pediu em namoro
Pênalti
Ela aceitou
gol
Irmã descobre
Contra-ataque
Mãe descobre
Escanteio
Pai descobre
FIM DE JOGO!!!!!

Veja que o poema “Futebol de amor” trata do ato da conquista amorosa de modo criativo, associando-o a expressões e regras relativas ao campo semântico do futebol. Nessa instância, o leitor constrói o sentido do poema citado, mediante ao conhecimento prévio que possuir do texto/evento referente: o futebol. Constata-se, nesse caso, que a compreensão não se restringe à superfície textual, uma vez que dialoga com outro contexto de enunciação. Em suma, os “dêiticos” são imprescindíveis à concretização de cada texto, no que tange à sua organização interna, bem como ao contexto de enunciação em que se insere.

Referências:
BARDARI, Sérsi. A função dos dêiticos na organização do texto. 2011. Disponível em: < http://sersibardari.com.br/wp-content/uploads/2011/08/A-função-dos-dêiticos-na-organização-do-texto.pdf>. Acesso em: 02 de dezembro de 2015.

LUNY 8. Futebol de amor. Disponível em: <http://pensador.uol.com.br/autor/luny8/>. Acesso em: 15 de dezembro de 2015.

Arquivado em: Linguística, Português