Comando de Caça aos Comunistas

Mestre em Educação (UFMG, 2012)
Especialista em História e Culturas Políticas (UFMG, 2008)
Graduada em História (PUC-MG, 2007)

O temor em relação ao comunismo não era novidade no contexto do Golpe de 1964. Utilizada desde o início do século XX, sobretudo durante a Era Vargas, a propagação de ideias contrárias ao comunismo e seus adeptos foi uma das mais poderosas armas dos regimes totalitários de direita para impor seu poder absoluto sobre a população e obter seu apoio.

Entretanto, no ano de 1964 a perseguição aos comunistas ganhou nova cara, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Organização de extrema direita e de caráter paramilitar, o CCC nasceu na cidade de São Paulo no mesmo ano em que os militares tomaram o poder. Compostos por estudantes da Mackenzie e da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, o CCC esteve presente no Golpe de 1964 e foi liderado por João Marcos Monteiro Flaquer, estudante de direito que, após formado, seguiu carreira na advocacia. O grupo foi composto também por policiais do DOPS e recebia treinamento do Exército Brasileiro.

Após alguns anos de interrupção de suas ações, o CCC voltou a atuar em 1968, pois julgava que o governo estava sendo ineficaz quanto ao combate ao comunismo em São Paulo. Considerada reduto da esquerda, a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) foi um de seus primeiros alvos. Esse episódio ficou conhecido como "Guerra da Maria Antônia", que referia-se ao nome da rua em que ambas as instituições eram sediadas. A rua foi palco do confronto sangrento que levou a morte o estudante José Guimarães e só foi controlado após a chegada da Guarda Civil.

O próximo alvo do grupo foi o espetáculo Roda Viva, de autoria de Chico Buarque, em cartaz no Teatro Ruth Escobar. O local foi invadido por membros do CCC que espancaram atores da peça considerada uma obra de resistência ao regime militar. Após o ocorrido, a peça voltou a ser encenada em Porto Alegre, onde novamente foi atacada pelo CCC e deixou de ser realizada definitivamente.

Entre 1970 e 1975 o grupo esteve fora da cena pública, retomando suas atividades no contexto das agitações públicas causadas pela morte do jornalista da TV Cultura, Vladimir Herzog, após ter se apresentado ao DOI-CODI de São Paulo voluntariamente para prestar depoimento sobre suposta ligação com atividades criminosas. O grupo atacou jornais e diretórios acadêmicos em São Paulo e Belo Horizonte, entretanto, nenhum de seus integrantes chegou a ser preso pelos atentados cometidos.

No final da década de 1970, o grupo voltou-se para a luta contra os movimentos pela anistia e contra integrantes da Igreja Católica que atuavam em defesa dos mais pobres e com discursos considerados de esquerda por defenderem os direitos humanos. Um exemplo foi o sequestro do bispo de Nova Iguaçu, Adriano Hipólito. O bispo sofreu agressões e foi deixado nu, pintado de vermelho, em um matagal em Jacarepaguá. Este não foi o único caso de atentado do CCC contra a Igreja Católica. Antes disso, na manhã de 27 de maio de 1969, o corpo do padre Antônio Henrique, assessor de Dom Helder Câmara em Pernambuco, foi encontrado com sinais de tortura e execução. Posteriormente, o inquérito sobre seu assassinato foi arquivado.

Nos últimos anos do processo de abertura política, o CCC cessou progressivamente suas atividades, ainda que existam simpatizantes do grupo até os dias atuais.

Bibliografia:

G1. Comissão da Verdade diz que Padre Henrique foi vítima de crime político. G1, Pernambuco, 27 mai. 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2014/05/comissao-da-verdade-diz-que-padre-henrique-foi-vitima-de-crime-politico.html>. Acesso em 31 out. 2017.

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