Polissíndeto

Mestre em Linguística, Letras e Artes (UERJ, 2014)
Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFBA, 2007)

Você deve comer e agradecer, falar e sorrir e gargalhar e rir alto e rir até com olhos, trabalhar e servir, andar e correr e sacudir os braços e pular e movimentar o corpo inteiro. Você tem o corpo perfeito e a mente saudável então deve fazer todas essas coisas e não esquecer de nada. Quando executar uma ação, lembre-se da outra. Você também deve orar e amar e cuidar e estar à disposição de todos ao seu redor. E se achar tudo isso muito, refaça a lista em sua mente e verá que a conta não ultrapassa suas aptidões. Você pode andar e pular e correr e mexer os braços e sorrir e falar e agradecer, tudo isso ao mesmo tempo. E também pode cantar. Porque você é perfeito.

(Agradecimento. Texto de Leticia Gomes Montenegro)

Percebe-se neste texto a presença insistente do termo aditivo “e”. As ações não estão separadas por vírgulas, elas seguem umas às outras unidas pela conjunção “e”, construindo período longo pouco usual nas construções sintáticas. Este modo de escrever evidencia as ações como uma lista ou uma sequência de atividades que devem ser realizadas pelo sujeito que lê. O texto é imperativo, ordena ao leitor que tome cada uma dessas atitudes uma vez que ele é perfeito. E para dar esse efeito o autor se vale de uma figura de linguagem sintática, o polissíndeto.

O polissíndeto é a repetição de uma mesma conjunção coordenativa, com a função de ligar orações de natureza sintática equivalentes. Portanto, essa figura de linguagem é oposta à figura denominada de assíndeto.

Em outras palavras, o polissíndeto constitui figuras de conexão que causam no texto o efeito de simultaneidade.

Relembre que o assíndeto ocorre quando as palavras de uma oração, ou as orações dentro do período se sucedem, sem o uso da conjunção coordenativa para estabelecer a conexão, elas são separadas por vírgulas.

Nesse sentido, o assíndeto é uma forma de dar ritmo e expressividade ao texto, e independente de se definirem por oposição uma à outra, o polissíndeto também poderá ser utilizado com esse mesmo fim; conferir uma determinada expressão à linguagem.

Observe exemplos neste diálogo entre João e sua mãe. Perceba que as opções feitas pela mãe revelam suas emoções, um tanto insatisfeitas, bem como deixam claras as suas intenções:

- João, você já fez o que eu lhe mandei, menino?

- Mãe, eu terminei tudo e estou jogando vídeo game.

- João, se eu pegar uma coisa fora do lugar, ou se você não tiver terminado tudo ficará de castigo.

(Alguns minutos depois)

- João!!! Você não tirou os cadernos da mesma e os livros do chão e a mochila continua jogada na cama e a cama por fazer e todo o seu quarto uma bagunça, e olha menino eu vou acabar com essa sua liberdade de achar que pode brincar sem cumprir minhas ordens.

- É que são ordens demais, minha mãe. Eu não dou conta de tudo ao mesmo tempo.

A intenção da mãe de João é que o menino cumpra com as ações de organização e cuidados com seu quarto e seus materiais escolares. Todas essas ações poderiam ser realizadas consecutivamente, sem que João precisasse parar ou descansar. A opção por falar cada ação sucedida do conectivo “e” faz com que o garoto entenda que todas devem ser cumpridas juntas, de maneira encadeada, mas João faz exatamente o contrário. Não cumpre nenhuma. Dizendo para a mãe que não consegue realizar tudo ao mesmo tempo. A fala de João colabora com o sentido expresso pela mãe através do recurso do polissíndeto. Ele entende perfeitamente que as ações poderiam ser realizadas de forma coordenada e simultâneas.

Bibliografia:

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. – 37. ed. rev., ampl. e atual. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

CUNHA, Celso e CINTRA, Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. – 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

GARCIA, Maria Cecília. Minimanual compacto de gramática da língua portuguesa: teoria e prática – 1. ed. – São Paulo: Rideel, 2000.

Koch, Ingedore Grunfeld Villaça.Introdução à Linguística Textual: trajetória e grandes temas – São Paulo: Martins Fontes, 2004. – (Coleção Texto e Linguagem)

Arquivado em: Linguística, Português