Silepse

Por Paula Perin dos Santos
Leia a seguinte sentença:

“Quando a gente é novo, gosta de fazer bonito.” (Guimarães Rosa)

Neste período, o escritor usou o adjetivo “novo” concordando com o sexo da pessoa que fala (masculino) e não com a palavra gente (feminino). Este é um exemplo de silepse, figura de sintaxe ou construção que se caracteriza por concordar com a idéia que se quer transmitir, não com os termos que aparecem na oração.

Essa figura de construção subclassifica-se em três tipos:

  1. Silepse de pessoa: “Enfim, lá em São Paulo todos éramos felizes graças ao seu trabalho...” (Rubem Braga)

Ocorre a silepse em “éramos”, que está na primeira pessoa do plural, quando, em sua construção normal, deveria estar na terceira pessoa do plural.

  1. Silepse de número: “Ninguém que comprar. Se ainda estamos aberto é por honra da firma”. (José J. Veiga)

Ocorre a silepse em “aberto”, que está no singular, quando em sua normal construção deveria estar no plural, concordando com o verbo “estamos”.

  1. Silepse de gênero: “Já vem chegando o sol, e São Paulo desperta, a princípio tímida, e logo agressiva e barulhenta”.

Ocorre a silepse em tímida, que está no feminino (fazendo referência à cidade), quando em sua normal construção deveria estar no masculino.

A silepse é um recurso estilístico muito utilizado em textos literários, na oralidade. Ela consiste em estabelecer uma concordância com palavras ou noções pressupostas na frase, não com palavras explícitas.

Veja outros exemplos de silepse:

  • “Vossa Majestade parece cansado”. (concorda com “ele” – masculino -  silepse de gênero)
  • “O pessoal ficou apavorado e saíram correndo”. (concorda com “todos” – plural – silepse de número)
  • “Os brasileiros gostamos de futebol”. (concorda com nós – primeira pessoa – silepse de pessoa)
  • “E todos seguimos para o salão de estudos”. (José Lins do Rego) (concorda com nós – primeira pessoa – silepse de pessoa)
  • “Rio de Janeiro continua maravilhosa, agitada e violenta” (concorda com a cidade – feminino – silepse de gênero)

REFERÊNCIAS

SAVIOLE, Francisco Platão. Gramática em 44 lições. 15 ed. São Paulo, Ática, p. 406.

TUFANO, Douglas. Estudos de Língua Portuguesa – Minigramática. São Paulo, Moderna, 2007.