Epifitismo

Bacharel em Ciências Biológicas (UNIFESP, 2015)

Epifitismo é o hábito de vida de alguns vegetais que crescem sobre a superfície de um outro ser vivo (quase sempre de uma planta), absorvendo nutrientes e água provenientes do ar e da chuva ou de resíduos orgânicos que sedimentem ao seu redor. Muitas vezes as espécies de plantas epífitas são confundidas com as parasitas, porém elas diferem na maneira como elas se relacionam com a planta na qual estão aderidas: as epífitas utilizam-na preferencialmente para suporte físico enquanto que as parasitas sugam sua seiva, tendo impactos negativos sobre o crescimento e desenvolvimento de seus hospedeiros.

As plantas epífitas, como as bromélias e as orquídeas, são muito importantes nos ecossistemas dos quais elas fazem parte, contribuindo para o aumento da diversidade biológica e da biomassa daquela comunidade e fornecendo recurso (tanto de habitat quanto alimentar) para os organismos consumidores. Elas ocorrem nas regiões tropicais e também nas zonas temperadas, onde são representadas por musgos e líquens.

Bromélia. Foto: Ricardo de Paula Ferreira / Shutterstock.com

O epifitismo ocorre tanto no ambiente terrestre quanto no aquático. As epífitas terrestres são conhecidas como “plantas aéreas”, uma vez que elas são encontradas nos galhos e troncos de árvores altas e por não possuírem raízes que toquem o solo. Quase 90% de todas as epífitas que ocorrem no ambiente terrestre são plantas angiospermas, porém este hábito de vida já foi descrito em praticamente todos os grupos vegetais (alguns exemplos são as samambaias, os musgos e as cicadófitas, um grupo de gimnospermas).

Uma característica comum a maioria delas é a baixa demanda por água, que é suprida pela umidade do ar ou pela alta pluviosidade tanto nas florestas tropicais quanto nas regiões temperadas e frias. Além disso, por estarem distantes do solo e consideravelmente altas, as epífitas recebem mais luz e ficam inacessíveis para muitos herbívoros, sendo estas importantes vantagens competitivas. As plantas epífitas têm um enorme impacto local e global nos ecossistemas em que elas ocorrem. Localmente, elas fornecem alimento para muitas aves e morcegos e servem de habitat para algumas espécies de sapos e de insetos. Globalmente, elas alteram a umidade na região das copas das árvores, uma vez que elas retêm uma parcela importante da água da chuva. Deste modo, elas criam um microclima mais fresco e úmido, reduzindo a transpiração e a perda de água das árvores.

O epifitismo aquático é realizado por uma enorme variedade de seres vivos que crescem na superfície de plantas aquáticas ou macroalgas. Alguns exemplos incluem bactérias, fungos, algas, esponjas, protozoários, crustáceos e moluscos. Muitos destes organismos também têm hábitos epilíticos (crescem sobre rochas) ou epibiontes (crescem sobre animais) e, o que define o local que eles se aderem depende do ciclo de vida de cada um deles, da quantidade de nutrientes na água, temperatura, correntes e fluxo d’água e iluminação. Este último fator é especialmente importante, uma vez que organismos epifíticos marinhos são responsáveis por cerca de 50% da produção primária destes ambientes.

Assim como no ambiente terrestre, as epífitas aquáticas são uma porção essencial da teia trófica e da biodiversidade ecossistêmica. Existe um grupo funcional marinho nomeado “pastadores” que sobrevive apenas da raspagem e consumo de epífitas, realizando o controle populacional destes organismos. Observa-se que locais com uma abundância muito grande de epífitas normalmente possuem uma concentração anormalmente elevada de nitrogênio ou fósforo, e este crescimento descontrolado pode ter efeitos negativos sobre o ecossistema, causando a morte de plantas ou macroalgas devido a diminuição ao acesso à luz e nutrientes.

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Referências:

Costa, D.P., 1999. Epiphytic bryophyte diversity in primary and secondary lowland rainforests in southeastern Brazil. Bryologist, pp.320-326.

Jernakoff, P., Brearley, A. and Nielsen, J., 1996. Factors affecting grazer-epiphyte interactions in temperate seagrass meadows. Oceanography and Marine Biology: an annual review.

Muñoz, A.A., Chacón, P., Pérez, F., Barnert, E.S. and Armesto, J.J., 2003. Diversity and host tree preferences of vascular epiphytes and vines in a temperate rainforest in southern Chile. Australian Journal of Botany, 51(4), pp.381-391.

Nadkarni, N.M., 1981. Canopy roots: convergent evolution in rainforest nutrient cycles. Science, 214(4524), pp.1023-1024.