Adaptação de parasitas

Graduação em Ciências Biológicas (UNIFESP, 2016)

O parasitismo é definido como uma interação onde um organismo parasita obtém recursos através de um ou vários indivíduos hospedeiros, provocando danos e reduzindo sua aptidão. Assim, são necessárias diversas estratégias para colonizar o hospedeiro, uma vez que é mais vantajoso que o hospedeiro permaneça vivo e que seu sistema imunológico não detecte a infecção. Essas estratégias podem ocorrer antes, durante e depois da entrada no hospedeiro, e são adaptações desenvolvidas ao longo do tempo que garantem o sucesso reprodutivo e a perpetuação das espécies de parasitas.

Algumas adaptações são gerais e contemplam a maior parte das espécies de parasitas, como o ciclo de vida curto e a elevada taxa de reprodução, dando origem a muitos descendentes em um único evento reprodutivo. Dessa forma, os parasitas garantem a manutenção da espécie rapidamente e em grande quantidade. Há também adaptações particulares, que dependem de interações específicas com o hospedeiro. Essas adaptações podem ser comportamentais, morfológicas, fisiológicas ou ainda estarem relacionadas a diferentes fases de desenvolvimento e investimento reprodutivo.

Assim, diferentes parasitas apresentam tamanhos e formatos adaptados aos seus respectivos hospedeiros. O protozoário Plasmodium sp. é um parasita intracelular, atingindo as células através da corrente sanguínea, e assim apresenta um tamanho pequeno de corpo. Já parasitas como Taenia e Ascaris apresentam tamanho de corpo maior na fase adulta, uma vez que se alojam no sistema digestório. Além disso possuem estágios larvais que contribuem para sua ingestão pelo hospedeiro, infecção e posterior crescimento.

Uma vez dentro do hospedeiro, os parasitas apresentam diferentes adaptações visando a sua fixação e permanência no organismo. As espécies do gênero Taenia, por exemplo, apresentam estruturas desenvolvidas para garantir a aderência do parasita nas paredes do sistema digestório. Na região do escólex estão presentes ventosas, e até mesmo ganchos no caso da Taenia solium. Para parasitas do trato intestinal existem também adaptações às enzimas digestivas, como o corpo revestido por uma cutícula protetora no caso do gênero Ascaris, ou por tegumento em indivíduos de Taenia solium. Além disso, esses parasitas costumam secretar substâncias que neutralizam as enzimas digestivas do hospedeiro, viabilizando assim sua permanência no intestino. Algumas adaptações consistem ainda em mudanças no antígeno dos parasitas em diferentes fases do desenvolvimento, como o vírus HIV, causador da AIDS, e também o protozoário Plasmodium. Essa estratégia dificulta uma detecção e resposta imunológica por parte do hospedeiro, e também torna complicada a produção de um medicamento completamente eficaz em todas as fases.

Existem ainda alterações no comportamento dos hospedeiros, a fim de beneficiar a contaminação ou propagação do parasita. A espécies de parasita Austrodiplostomun compactum invade o peixe ciclídeo Satanoperca pappaterra, considerado o hospedeiro intermediário, se alojando no seu globo ocular. Para atingir o hospedeiro definitivo (a garça), esse parasita altera o comportamento do peixe, prejudicando sua visão nos momentos de atividade alimentar das garças e favorecendo a sua captura e ingestão pelas aves. Assim, os peixes ficam mais vulneráveis à predação pelas garças e o parasita é capaz de completar seu ciclo reprodutivo no hospedeiro definitivo.

Referências Bibliográficas

[1] Begon, M.; Townsend, C. R. & Harper, J. L. Ecology: from individuals to ecosystems. 4 ed. Reino Unido: Editora Blackwell Publishing Ltd, 759p., 2006.

[2] Parasitic Adaptation. Disponível em: https://learnzoology.wordpress.com/2014/03/07/parasitic-adaptations/.

[3] Universidade Tecnológica Federal do Pará. Parasito de peixes pode manipular seus hospedeiros, aponta estudo. Disponível em: http://portal.utfpr.edu.br/noticias/reitoria/divulgacao-cientifica/parasitos-de-peixes-podem-manipular-seus-hospedeiros-aponta-estudo

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