Metaficção

Mestra em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP, 2012)
Graduada em Letras (PUC-SP, 2008)

O escritor e crítico literário William Gass usa o termo metaficção pela primeira vez a fim de nomear as obras ficcionais que rompem com o cânone estabelecido pelo Modernismo norte-americano. A partir da década de 1960, inúmeros escritores produzem obras que subvertem as convenções literárias de elaboração do romance.

Nesse contexto, a escrita é trabalhada em seus âmbitos composicional, referencial e de representação do real. O curso da História, em sua continuidade, desponta como matéria fundamental para a criação da ficção da chamada geração de pós-modernistas ou metaficcionistas.

O poeta pós-modernista é aquele que exerce o ofício artístico na amplitude da escrita, da análise e da crítica literária, tudo ocorrendo simultaneamente. A intenção do artista é garimpar definições e conceitos que possam desvelar, no contexto artístico e social, o gênero metaficcional.

Para isso, o autor deixa rastros que levam o leitor a conhecer a estratégia da criação literária. Somado a isso, as obras metaficcionais possuem como características a multiplicidade do ponto de vista – em alguns casos estão presentes até a contradição e a incoerência –, a indissociação entre realidade e ficção, a transgressão da linearidade narrativa e o convite para que o leitor faça uma interpretação crítica e reflexiva.

Desde o início da década de 1980, estudiosos da literatura tentam criar mecanismos comparativos para classificar as produções pós-modernas. Contudo, ainda que haja um consenso de que a metaficção é constituída por textos que se debruçam criticamente sobre si mesmos, é possível encontrar tendências metaficcionais desde autores como Miguel de Cervantes, em sua emblemática obra Dom Quixote.

Na mesma década, início dos anos 80, o escritor Umberto Eco publica o livro Pós-Escrito a Nome da Rosa, uma obra que presenteia o leitor com a revelação das estratégias literárias usada por ele em seu famoso romance O nome da Rosa. Se no final do século XX Umberto Eco, incentivado pelos ideais metaficcionais, escreve criticamente e reflexivamente sobre sua produção, no século XXI a reflexão, a crítica e os resquícios do fazer poético estão inseridos nos próprios romances.

Desta forma, a soberania do autor é posta em xeque, afinal, muitas vezes há um personagem escritor que possui autonomia dentro do universo do livro e o leitor também exerce função de cocriador na construção de um mundo e uma história possíveis. O processo de leitura pós-moderna solicita uma imaginação ativa e criativa por parte do leitor, uma vez que este agora pode se tornar inclusive um personagem na trama.

Sendo assim, as narrativas metaficcionais exigem cada vez mais um público leitor que tenha background literário, pois só desta forma as citações, alusões, intertextualidades e as referências podem fazer sentido.

Algumas produções que apresentam componentes metaficcionais:

  • Guerra e Paz, de Tolstói;
  • Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski;
  • O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar;
  • Ulysses, de James Joyce.

Durante um tempo a metaficção foi vista como sendo a “morte” do romance por não se preocupar mais com o quê contar, mas com o como contar. Na verdade, as estratégias metaficcionais fazem a literatura evoluir e propõem aprimorar e aprofundar discussões ficcionais que já estavam presentes desde Homero.

Referências:

FERNANDEZ, Sara Rosa Faria da Silva Vitorino. A metaficção no romance pós-modernista português. 2012, 229f. Tese (Doutorado em Literatura). Universidade do Algarve, Faro, 2012.

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