Estilística

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)
Graduação em Letras (Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, FUNCESI)

A estilística estuda o estilo linguístico que, de acordo com Bakhtin (2000, p.284), “está indissoluvelmente ligado ao enunciado e a formas típicas de enunciados, isto é, aos gêneros do discurso”. Em outras palavras, ele compõe os gêneros do discurso. Em que consiste o estilo em um texto? Na adequação dos recursos linguísticos, escolhidos pelo autor, às condições de produção de cada gênero. Desse modo, a interação por meio da linguagem acontece. Vamos entender melhor o estilo? Para tal, leia este texto:

Robô: mil e uma utilidades

Todo mundo já ouviu falar em robôs. Quem não se identificou com o simpático Wall-E, da Disney, ou o corajoso R2D2, de Guerra na Estrelas? Mas quem pensa que essas simpáticas máquinas só existem em filmes ou livros de ficção científica está redondamente enganado. Eles são utilizados em diversas funções e, cada vez mais, farão parte do nosso dia a dia.

A origem do nome robô é a palavra checa “robota”, que significa trabalho forçado. […]

Mas… O que é um robô? É uma máquina com habilidade para se comunicar e interagir com o seu ambiente. Isso pode ser feito autonomamente ou através de interação com alguém.

Mas, diferentemente daqueles representados em desenhos animados, os robôs da vida real não pensam, mas até isso pode mudar…

Bruno Delecave. Disponível em: <http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1094&sid=9>. (Fragmento).

Qual a finalidade do texto acima? Explicar as utilidades do robô. Dessa maneira, há o predomínio do tipo de texto expositivo. O autor emprega uma linguagem didática para alcançar o público de modo geral. Repare que, em dois momentos, ele se dirige diretamente ao leitor, por meio de perguntas. Soma-se a isso o uso do pronome possessivo “nosso”, que contribui para aproximar os envolvidos com o ato de interlocução. Se o autor optasse por uma linguagem mais técnica ou científica para a abordagem do tema, alcançaria o mesmo o público? Não. Nesse caso, ele alcançaria apenas aqueles que entendem de robótica e/ou atuam nessa área.

Observe que o autor empregou diferentes elementos linguísticos para a ligação das ideias do texto sobre o robô. No primeiro parágrafo, a expressão “essas simpáticas máquinas” e o pronome pessoal “Eles” substituem a palavra-chave do texto “robôs”, evitando repetições desnecessárias. No período “Isso pode ser feito autonomamente ou através de interação com alguém.”, o pronome demonstrativo “Isso” retoma uma informação. Podemos destacar também a presença das conjunções coordenativas “Mas”, “e”, “ou”, que estabelecem diferentes relações de sentido. Em suma, o texto em questão é coerente e coeso, visto que as ideias fazem sentido (têm lógica) e são apresentadas de forma articulada e harmônica.

Em suma, o produtor do texto precisa escolher de forma adequada os recursos linguísticos, tendo em vista a função do gênero. É importante frisar que esse ato de escolher não deve ser entendido como sinônimo de liberdade, mas como um ato de se inserir em determinado gênero textual, em determinado contexto comunicativo. Se alguém vai escrever, por exemplo, um artigo de opinião, precisa respeitar as características inerentes a esse gênero de texto, para que o processo de interação com o leitor se torne possível. Isso é ter estilo.

Para concluir:

A estilística é a área da linguística que estuda o estilo. Trata-se de um estudo essencial para a compreensão do funcionamento do estilo na construção do gênero de texto, do qual é parte integrante. Vale reforçar que um texto com estilo é o texto que atenda às condições impostas pelo gênero, visando à interação por meio da linguagem.

Referências:

BAKHTIN, Mikhail. Problemática e definição. In: ___ Estética da criação verbal. Tradução de Maria Ermantina Galvão G. Pereira. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p.279-287. Título original: Estetika slovesnogo tvortchestva.

DELECAVE, Bruno. Robô – mil e uma utilidades. Disponível em: <http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1094&sid=9>. Acesso em: 28 de novembro de 2019.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: BEZERRA, Maria Auxiliadora (org.) et al. Gêneros textuais e ensino. 2.ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005, p. 19-36.

POSSENTI, Sírio. Enunciação, autoria e estilo. In: Revista da Faebra. Salvador, n.15, jan/jun 2001, p.15.

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