Atualidades na Prova do Enem

Mestrado em História (UFJF, 2013)
Graduação em História (UFJF, 2010)

O Exame Nacional do Ensino Médio foi criado em 1998 para avaliar a qualidade do ensino no Brasil. A proposta inicial era bem rígida e apresentava um modelo com divisões claras entre as disciplinas. Ou seja, era uma avaliação bastante metódica e que, na prática, interessava a poucos. Com o passar dos anos, algumas universidades passaram a utilizar o Enem como integrante do processo seletivo para ingresso nos seus cursos de graduação. Esta postura ampliou a procura e os horizontes do exame. Assim, o Ministério da Educação percebeu que a avaliação poderia atender com maior abrangência aos alunos de Ensino Médio no país. A adoção de um padrão inovador veio em 2009, quando o Enem se tornou a porta de entrada para as universidades públicas brasileiras.

O modelo inicial do Enem baseado em divisões rígidas das disciplinas foi substituído por uma tendência da Educação, o caráter interdisciplinar. A nova proposta da avaliação é fazer o aluno refletir sobre o mundo que o cerca, mostrando que as disciplinas estudadas na escola estão, na prática, todas interligadas e presentes no dia a dia de cada um. A prova em si não é mais dividida por disciplinas, mas por grandes áreas do conhecimento: Ciências Humanas e Suas Tecnologias; Linguagens, Códigos e Suas Tecnologias; Ciências Naturais e Suas Tecnologias e Matemática e Suas Tecnologias.

Para realizar uma boa prova do Enem não basta apenas estudar as disciplinas ensinadas em sala de aula, é preciso ser cidadão e estar atualizado com as notícias do mundo. O novo Enem está buscando formar cidadãos atuantes, e não apenas alunos capazes de armazenar informações obtidas no decorrer do Ensino Médio. Assim, a grande dica de estudo é a leitura. É fundamental que o aluno leia bastante os livros didáticos, mas também romances e jornais, desenvolvendo a capacidade de relacionar as informações. Embora, a princípio, esta pareça uma conduta específica para a prova de Ciências Humanas e Suas Tecnologias, ela é útil para todos os conteúdos do exame e, claro, para a vida do cidadão. A seguir, relacionaremos alguns fatos de destaque no último ano que podem estar presentes na prova abordando variados aspectos do conhecimento.

No mês de julho de 2013, o Brasil recebeu a visita do Papa Francisco para a Jornada Mundial da Juventude, um evento católico criado pelo Papa João Paulo II em 1984. Este é um aspecto cultura que pode ser enfocado de diversos ângulos. É importante lembrar que o atual papa sucede o Papa Bento XVI, que renunciou em fevereiro, um ato raríssimo na história da Igreja Católica. Seu sucessor, Papa Francisco, é o primeiro Sumo Pontífice latino-americano da história, o argentino Jorge Mario Bergoglio. Através destes fatos pode-se abordar questões como poder político e cultural da Igreja Católica, Idade Média, colonizações e infalibilidade papal, por exemplo.

Ainda no aspecto religioso, pesquisa recente mostrou uma queda acentuada do número de católicos no Brasil e a duplicação da quantidade de evangélicos. Tudo isso pode ser relacionado também com a visita do Papa Francisco ao Brasil em uma questão. E, além disso, pode-se levantar questões sobre fundamentalismo religioso, intolerância, relação entre religião e Estado, padroado e beneplácito ou mesmo assuntos mais polêmicos como o aborto. Por sinal, são ótimas questões para serem debatidas na redação que integra o Enem.

Na área mais política e/ou social, dois fatos recentes são destacados: a criação da Comissão da Verdade e o movimento em favor da refundação do partido ARENA. Os dois, inclusive, podem aparecer em uma única questão tratando de direitos políticos, censura, ditadura militar e todas as suas características. A Comissão da Verdade foi criada pela presidente Dilma Rousseff para investigar os crimes da ditadura militar e julgar seus responsáveis, algo que já aconteceu na Argentina e no Chile. Já o partido ARENA representava os militares durante a ditadura militar e, ao lado do MDB, forjavam eleições democráticas no Brasil. Desde 2012 que um grupo de militantes tenta conquistar adeptos para refundar o partido no país. Essas questões podem ser exploradas sob diversos aspectos na história da segunda metade do século XX.

Ainda na política, o PT completou dez anos de governo no Brasil com os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Antes, foram oito anos de governo PSDB, com o presidente Fernando Henrique Cardoso. A comparação desses dois períodos possui muitos aspectos para serem explorados, seja na economia, na educação, na redução da miséria e também na corrupção. Este último tópico remete ao Mensalão do PT e ao Mensalão do PSDB, que são muito presentes no debate político atual. Falcatruas no governo federal, aliás, sempre remetem também ao governo e ao impeachment do presidente Fernando Collor de Melo.

Por falar em corrupção, o povo brasileiro tomou as ruas em 2013 promovendo uma série de manifestos e demonstrando a grande insatisfação com a administração de nosso país. O estopim dos manifestos foi o aumento das passagens de ônibus urbanos nas capitais São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, logo a manifestação ganhou amplitude e passou a questionar diversas questões. Esses manifestos podem ser relacionados em questões do Enem com a Primavera Árabe e também com eventos de nossa própria história, como as Diretas Já e movimentos de resistência à ditadura militar. Diante das manifestações, o governo brasileiro discute possíveis modelos de reforma política, tema que pode explorar nossas muitas Constituições e suas conjunturas, por exemplo.

Sob o aspecto cultural e/ou econômico, o Brasil vive momentos de destaque internacional com grandes eventos. Copa das Confederações, Jornada Mundial da Juventude, Copa do Mundo e Olimpíadas podem embasar questões sob diversos aspectos no Enem, com destaque para investimentos em infraestrutura, distribuição de renda, desigualdades regionais, tecnologia e segurança.

Já do ponto de vista das relações internacionais, uma preocupação constante é a Crise na Europa. O Velho Mundo tem demonstrado várias dificuldades em superar as adversidades, colocando em questão a efetividade da União Europeia e o tradicional eurocentrismo, já que países outrora colonizados pelos europeus, como o Brasil, têm sido fonte de recursos para tentar salvar a economia europeia. No contexto dessa crise, destaca-se a grave situação da Grécia, berço da civilização ocidental, e também as manifestações sociais por melhores condições de vida e reformas políticas. São fatos que podem ser relacionados a discussões sobre democracia, capitalismo, socialismo, grandes navegações, metrópoles e colônias e grandes guerras.

Outra tensão política recente vem do Extremo Oriente com o histórico conflito entre Coreia do Norte e Coreia do Sul. Em 2013, a Coreia do Norte, governada sob um regime pretensamente socialista, ameaçou um ataque aos Estados Unidos. A situação foi apaziguada, todavia o contexto remete à Guerra Fria e às disputas entre socialismo e capitalismo. O que fornece subsídios para explorar questões como a Guerra do Vietnã, a Revolução Russa, a Revolução Cubana e a Revolução Chinesa, a Crise dos Mísseis, a corrida espacial, o fim da União Soviética e outros elementos constituintes do período pós Segunda Guerra Mundial.

No que se refere ainda ao Brasil no cenário internacional, 2013 celebra o ano da Alemanha no Brasil, o que permite abordar diversos aspectos da relação entre esses dois países. Imigração e Segunda Guerra Mundial são, assim, temas quentes nesta abordagem. Outro ponto delicado que envolve o Brasil nas relações internacionais é a presença de tropas brasileiras no Haiti. Nosso exército está no país da América Central prestando auxílio à população após um terremoto devastador em 2009 e tentando manter a paz. É importante lembrar que o Haiti se tornou independente após uma revolta de escravos negros, sofrendo o isolamento em função do preconceito. Esta é uma importante discussão e que pode ainda ser acompanhada sobre a criação e a função da Organização das Nações Unidas (ONU).

Por fim, uma curiosidade que também permite diversas abordagens na prova do Enem. Nos últimos meses, cientistas descobriram centenas de exoplanetas com constituições muito semelhantes a do planeta Terra. Simultaneamente, a NASA está explorando a superfície de Marte. São fatos que podem ilustrar significativamente questões de todas as quatro grandes áreas de conhecimento do Enem ou mesmo estimular reflexões na redação.

Como diria Karl Marx, "a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". Logo, presente e passado estão sempre interligados, permitindo reflexões múltiplas e interdisciplinares, como pretende fazer o Enem.

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