Metonímia



Por Paula Perin dos Santos
Leia o poema “A laçada”, de Oswald de Andrade.

“O Bento caiu como um touro
No terreiro
E o médico veio de Chevrolé
Trazendo o prognóstico
E toda a minha infância nos olhos”.

No terceiro verso, o eu lírico, em vez de empregar a palavra “carro” preferiu utilizar “Chevrolé”, mantendo entre elas uma relação de inter-dependência, já que “Chevrolé” é uma marca de carro. Temos assim a metonímia, uma figura que consiste em usar uma palavra no lugar de outra, mantendo uma relação de implicação mútua, nesse caso, a substituição do produto pela marca.

Observe este outro exemplo de metonímia:

“Trabalhava ao piano, não só Chopin como ainda os estudos de Czerny”. (Murilo Mendes)

Nesse caso, uma relação de causa-efeito permitiu que o poeta usasse a palavra Chopin (compositor de uma partitura musical) para designar a própria partitura (a obra “causada” pelo autor).

A metonímia ocorre quando empregamos:

  1. O efeito pela causa ou vice-versa: “Conseguiu sucesso com determinação e suor” (trabalho).
  2. O nome do autor pela obra: “Ler Guimarães Rosa é um projeto desafiador” (a obra).
  3. O continente (o que está fora) pelo conteúdo (o que está dentro): “Bebeu só dois copos e já saiu cambaleando” (a bebida).
  4. O substantivo concreto pelo abstrato: “Tratava-se de um papo-cabeça” (intelectual).
  5. O abstrato pelo concreto: “Era difícil resistir aos encantos daquela doçura” (pessoa meiga, agradável).
  6. A marca pelo produto: “Comprei uma caixa de Gilette” (lâmina de barbear).
  7. O instrumento pela pessoa: “Quantos quilos ela come por dia?
    Quilos? Não sei, mas ela é boa de garfo” (o instrumento utilizado para comer). (Luiz Vilela)
  8. O lugar pelo produto: “Queria tomar um Porto fervido com maçãs” (o vinho).
  9. O sinal pela coisa significada: “O trono inglês está abalado pelas recentes revelações sobre a família real” (o governo exercido pela monarquia).
  10. O singular pelo plural: “O brasileiro tenta encontrar uma saída para suportar a crise” (um indivíduo por todos).
  11. A parte pelo todo: “Enormes chaminés dominam os bairros fabris da cidade inglesa”. (fábricas)
  12. A classe pelo indivíduo: “Depois desse episódio, não acredito mais no Juizado brasileiro” (os juízes).
  13. A matéria pelo objeto: “O jantar foi servido à base de porcelanas e cristais” (matéria de que é feito o objeto).

No cotidiano, a metonímia é também é muito empregada para orientar usuários em guias turísticos, terminais de transportes, ginásios esportivos, postos de gasolina e rodoviários, etc. Eles vêm em forma de criptogramas, imagens ou grupo de imagens que integram uma escrita sintética, resumida.

Fontes
CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura Brasileira em diálogo com outras literaturas. 3 ed. São Paulo, Atual editora, 2005, p.36-8.
PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de Janeiro, Presença, 1981, p. 101.
SAVIOLE, Francisco Platão. Gramática em 44 lições. 15 ed. São Paulo, Ática, 404.


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