Homeotermia

Mestre em Ciências Biológicas (UFRJ, 2016)
Graduada em Biologia (UFRJ, 2013)

A homeotermia consiste na capacidade dos organismos de manterem sua temperatura corporal interna constante, independente da temperatura do meio. Por muito tempo essa capacidade foi tratada como sinônimo do hábito endotérmico, contudo, embora homeotermia e endotermia estejam realmente associadas, também existem animais ectotérmicos que são capazes de manter sua temperatura corporal mais ou menos constante.

Outra confusão bem comum ocorre quanto à designação animais de “sangue quente” utilizada para aves e mamíferos e animais de “sangue frio” para os demais organismos. De fato, uma marca importante da homeotermia é a manutenção de uma temperatura corporal elevada acima da ambiental (entre 36 e 42°C dependendo da espécie). Entretanto, lagartos que passam grandes períodos do dia expostos ao sol, uma variedades de insetos e até mesmo alguns peixes mantêm parte de seu corpo com temperaturas próximas àquelas encontradas nos animais de “sangue quente”.

A temperatura de aves e mamíferos apresentam pequenas variações de 1 a 2°C ao longo do dia. Alguns animais podem apresentar um pequeno aumento em um período específico do dia quando este for mais ativo, dependendo se seu hábito é diurno ou noturno. Apesar disso, a atividade não possui grande influência nesses ciclos de pequenas variações diárias, pois elas ocorrem até mesmo em momentos de repouso absoluto.

A vantagem mais direta observada nos homeotermos é o fato de eles não dependerem da imprevisibilidade do ambiente para a manutenção da temperatura corporal. Já a partir de uma visão mais detalhada, observa-se que a temperatura ótima de cada espécie se mantém próxima a temperatura limite de permissão da vida daquele mesmo organismo. Isso ocorre, pois a temperatura corporal está intimamente relacionada à temperatura ótima de funcionamento de suas proteínas, e estas desempenham os mais importantes papéis funcionais e estruturais do corpo. Assim, a conservação da temperatura alta é essencial para manter as proteínas funcionando com todo seu potencial metabólico, mas dentro de um limite, que se ultrapassado, pode causar a desnaturação dessas proteínas.

No ambiente terrestre, a termorregulação de aves e mamíferos é resultado do balanço entre a geração de calor metabólico e as perdas através da evaporação bem como os processos de convecção e condução. Em um ambiente frio existem respostas corporais internas e externas desses organismos como a constrição dos vasos sanguíneos próximos a superfície do corpo, eriçamento de penas e pelos, e ondas de contração musculares, isto é, tremores que geram calor metabólico com o mínimo de esforço físico. Insetos voadores como gafanhotos, grandes mariposas, borboletas, vespas e abelhas também são capazes de aquecer seus músculos de voo antes da decolagem por meio de um processo semelhante aos tremores dos vertebrados.

Já os ambientes aquáticos compõem uma dinâmica particular de termorregulação, pois a equação de perdas e ganhos é simplificada já que na água não há evaporação. Animais grandes como tartarugas marinhas apresentam a vantagem de ter uma proporção superfície-volume pequena, o que minimiza a perda de calor para o meio. Essa proporção juntamente com camadas espessas de tecidos superficiais que auxiliam no isolamento térmico permitem que esses animais alcancem temperaturas corporais superiores as do meio, podendo inclusive viver em regiões de águas frias. Por outro lado, a alta condutividade térmica e o elevado calor específico da água não permitem que animais pequenos alcancem uma temperatura muito diferente do ambiente.

Referências:

Ivanov, K. P. 2006. The development of the concepts of homeothermy and thermoregulation. Journal of Thermal Biology, 31: 24–29.

Pough, F.; Janis, C. M.; Heiser, J. B. 2008. A vida dos vertebrados. 4ª ed., São Paulo: Atheneu, 684p.

Schmidt-Nielsen, K. 2010. Fisiologia animal: adaptação e meio ambiente. 5ª ed., São Paulo: Santos, 611p.

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