Surucucu

Mestre em Ecologia (UERJ, 2016)
Graduada em Ciências Biológicas (UFF, 2013)

As serpentes do gênero Lachesis, da família Viperidae, pertencentes à Ordem Squamata, são conhecidas popularmente por surucucu, surucucu-pico-de-jaca, surucutinga e malha de fogo. No Brasil são encontradas em áreas da Amazônia, Mata Atlântica e em áreas de matas úmidas do Nordeste. O gênero Lachesis possui as espécies Lachesis stenophrys, Lachesis melanocephala, Lachesis muta muta e Lachesis muta rhombeata, sendo apenas as duas últimas encontradas no Brasil. O nome científico da espécie Lachesis muta é uma referência a Láquesis, uma das Moiras, as três irmãs da mitologia grega que decidiam o destino dos seres humanos e deuses. Muta ("muda" em latim) faz referência à vibração da sua cauda no substrato que, similar à da cascavel, se diferencia por não ter ruído.

Lachesis muta é a maior espécie das serpentes peçonhentas das Américas, podendo atingir até 3,5 metros de comprimento. As surucucus apresentam no corpo desenhos típicos na forma de losangos que alternam entre as cores amarela e preta. Uma importante característica morfológica destas cobras é que na cauda apresentam a última subfileira de escamas modificadas, sendo estas quilhadas e eriçadas além de apresentar um espinho terminal. Possuem dentição solenóglifa que inoculam o veneno (conhecido como veneno laquético) na presa, fossetas loreais (orifícios entre as narinas e os olhos que funcionam como um sensor térmico) e pupilas verticais.

Surucucu da espécie Lachesis muta muta. Foto: Patrick K. Campbell / Shutterstock.com

São serpentes de hábitos crepuscular e noturnos, vivendo em ambientes terrestres. É uma espécie considerada tranquila em cativeiro, ao contrário das lendas populares que lhe atribuem agressividade extrema. É muito difícil de ser encontrada, por se esconder por baixo de troncos e raízes, e em buracos de tatus em florestas tropicais. A agressividade atribuída às surucucus é devido ao fato desta cobra apresentar esse comportamento quando invadem o seu território, mas é importante lembrar que este comportamento nada mais é que uma defesa deste réptil quando se sente ameaçada.

Sua dieta consiste principalmente de pequenos roedores. Adota a oviparidade como estratégia reprodutiva e posta aproximadamente 15 ovos por época de acasalamento. Essa é a única espécie de viperídeo (família Viperidae) no Brasil que é ovípara e em que a fêmea se enrola junto aos ovos, sendo uma forma de cuidado parental, ou seja, cuidado da mãe com a prole. Os filhotes nascem com cerca de 40 a 50 centímetros de comprimento.

O veneno laquético possui ações proteolíticas, coagulantes, hemorrágicas e neurotóxica, que dependendo da quantidade de veneno introduzido vão ser responsáveis pela gravidade e manifestações clínicas. Alguns sintomas característicos do veneno das surucucus são dor, formação de edema, bolhas, necrose, distúrbios da coagulação e síndrome vagal. O tratamento para o envenenamento laquético é baseado na gravidade do acidente que pode ser de moderado a grave. No Brasil está disponível para o tratamento o soro antibotrópico-laquético, de administração via intravenosa.

Referências Bibliográficas:

Ferreira, Rafael. 2013. Surucucu: A Dona da Noite. O eco: Jornalismo ambiental. http://www.oeco.org.br

Melgarejo, A. R. Serpentes Peçonhentas do Brasil. In: Animais peçonhentos no Brasil, Biologia, Clínica e Terapêutica dos acidentes. 2003. São Paulo: Sarvier, 33-61 p.

Pardal, Pedro P. de O.; Bezerra, Ismael S.; Rodrigues, Liliam da S.; Pardal, Joseane S. de O.; Farias, Pedro Henrique S. de. 2007. Acidente por surucucu (Lachesis muta muta) em Belém-Pará: relato de caso. Revista Paraense de Medicina 21(1): janeiro-março.

BRASIL. Manual de diagnóstico e tratamento de acidentes por animais peçonhentos. Brasília: Fundação Nacional de Saúde, 1998, 131p.

FREITAS, Marco Antonio de. Serpentes brasileiras. Feira de Santana, BA, 2003. 120 p. ISBN: 85-86967-02-5.

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