Realismo

Mestre em Literatura Brasileira (UERJ, 2010)
Graduada em Letras e Literatura (UERJ, 2008)

O Realismo é uma estética do século XIX que defende a objetividade, a moderação do sentimentalismo e a visão científica, opondo-se ao Romantismo.

Após a efervescência literária romântica, houve retorno ao pensamento científico do Renascimento.

O realismo surge na França e de lá se espalha. Em Portugal, o Realismo ficou marcado pela Questão Coimbrã – desavença (publicada em jornal em 1865) entre novos escritores, acusados de “exibicionistas e propositada obscuridade”, e escritores mais velhos. Desse grupo de novos escritores faziam parte Antero de Quental, Eça de Queirós e Teófilo Braga. Antero defendia a independência artística dos novos autores. O grupo envolvido na Questão Coimbrã se reuniu nas Conferências democráticas que pretendiam reformar as letras lusitanas com algumas propostas como ligar Portugal ao movimento moderno da Europa e tratar de questões da Filosofia e da Ciência moderna, além de estudar a condições políticas, econômica e religiosa da sociedade portuguesa: primórdios dos fundamentos realistas. Como marco literário da estética, temos o ano de 1871, quando Eça de Queirós discursa sobre o Realismo como nova expressão de arte.

Dentre as características da literatura dessa época temos o gosto pelo progresso da ciência em reação ao convencionalismo amoroso dos românticos. Nomes como o químico Berthelot, o biologista Pasteur e o naturalista Charles Darwin, criador da teoria evolucionista (o darwinismo é uma das características dessa estética). Há a aplicação de grandes descobertas da ciência à vida social. A nova estética encontrou amparo na ciência que muito modificou a sociedade com a revolução tecnológica: telégrafos, locomotivas, máquinas a vapor, luz elétrica, o telefone de Graham Bell; todas essas mudanças atribuíram um olhar mais científico à literatura. A base filosófica tem justamente esse apelo científico: a teoria positivista de Auguste Comte que defende a sistematização dos eventos sociais como nas ciências exatas, ou seja, a observação da sociedade segundo métodos científicos. Assim, defende a observação objetiva dos fenômenos sociais – a sociologia ganhou grande destaque nesse período.

O realismo em Portugal

Os principais nomes do realismo lusitano são Eça de Queiros e Antero de Quental.

A obra de Antero de Quental foi basicamente poética: publicou Primaveras românticas (1872), poemas marcados por certo ceticismo em relação ao amor (o que o coloca como realista). Outra obra de caráter marcadamente realista é a publicação de Odes Modernas (1865, ano da questão coimbrã). Nessa obra, traz uma postura confiante e combativa, preocupada com o progresso social e o destino do homem moderno.

 

 

"A ideia" - IV (Antero de Quental)

Conquista pois sozinho o teu futuro,
Já que os celestes guias te hão deixado,
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem — proscrito rei — mendigo escuro!

Se não tens que esperar do Ceo (tão puro,
Mas tão cruel!) e o coração magoado
Sentes já de ilusões desenganado,
Das ilusões do antigo amor perjuro;

Ergue-te, então, na majestade estóica
D'uma vontade solitária e altiva,
N'um esforço supremo de alma heróica!

Faze um templo dos muros da cadeia,
Prendendo a imensidade eterna e viva
No círculo de luz da tua Ideia!

Eça de Queiros foi o maior romancista realista português. Inicia sua carreira com O crime do Padre Amaro (1875). O autor observa a sociedade lusitana, suas anomalias e anormalidades, material para outras obras como O primo Basílio (1878); A relíquia (1887); Os maias (1888, iniciada em 1880). Nessas obras estão descritos os detalhes da sociedade lisboeta (de Lisboa), com muita argúcia, imaginação e uma visão original da realidade.

O autor também escreveu algumas obras naturalistas. As obras de Eça são muito importantes no Brasil, sendo transformadas em filmes e minisséries.

O realismo Francês

Na França os principais nomes do realismo são do romancista Gustave Flaubert e sua obra Madame Bovary (marco do realismo francês e ícone do realismo universal). Outro nome importante foi Emile Zola, autor de Germinal – romance sobre a Revolução Francesa. Temos também o poeta Charles Baudelaire, que publicou As flores do mal (1857).

A voz (Charles Baudelaire)

Meu berço ao pé da biblioteca se estendia,
Babel onde a ficção e ciência, tudo, o espolio
Da cinza negra ao pó do Lácio se fundia.
Eu tinha ali a mesma altura de um in-fólio.
Duas vozes ouvi. Uma, insidiosa, a mim
Dizia: "A Terra é um bolo apetitoso à goela;
Eu posso (e teu prazer seria então sem fim!)
Dar-te uma gula tão imensa quanto a dela."
A outra: "Vem! Vem viajar nos sonhos que semeias,
Além da realidade e do que além é infindo!"
E essa cantava como o vento nas areias,
Fantasma não se sabe ao certo de onde vindo,
Que o ouvido ao mesmo tempo atemoriza e afaga.
Eu te respondi: "Sim, doce voz!" É de então
Que data o que afinal se diz ser minha chaga,
Minha fatalidade. E por trás de telão
Dessa existência imensa, e no mais negro abismo,
Distintamente eu vejo os mundos singulares,
E, vítima do lúcido êxtase em que cismo,
Arrasto répteis a morder-me os calcanhares.
E assim como um profeta é que, desde esse dia,
Amo o deserto e a solidão do mar largo;
Que sorrio no luto e choro na alegria,
E apraz-me como suave o vinho mais amargo;
Que os fatos mais sombrios tomo por risonhos,
E que, de olhos no céu, tropeço e avanço aos poucos.
Mas a voz consola e diz: "Guarda teus sonhos:
Os sábios não os têm tão belos quanto os loucos!"

Leia mais:

Bibliografia:

FERREIRA, Joaquim. História da literatura portuguesa. Porto, Ed. Domingos Barreira, s/a.

RAMOS, Feliciano. História da literatura portuguesa. Braga, Livraria Cruz, 1967, pp 8-190.

SARAIVA, Antonio José. História da cultura em Portugal. Vol II. Gil Vicente Reflexos da Crise. Lisboa, Gradiva, 2000.