Fóssil vivo

Mestrado em Geografia (UFSC, 2015)
Graduação em Geografia (UFSC, 2012)

O termo “fóssil vivo” pode passar uma ideia que nos faz lembrar de famosos filmes em que espécies de animais já extintos passam a viver entre os seres humanos. Mas não confunda ficção com realidade. Os fósseis vivos são organismos atuais que pertencem a grupos biológicos que, no passado geológico, foram muito mais numerosos e diversificados que na atualidade. São morfologicamente parecidíssimos com organismos que só são conhecidos por registro fóssil. Um outro termo já foi mais utilizado entre a comunidade científica para descrever esses casos, que eram conhecidos como “formas-relíquia”.

A expressão fóssil vivo advém dos escritos de um dos maiores naturalistas, geólogos e biólogos de todos os tempos, o britânico Charles Darwin (Shrewsbury, 12 de fevereiro de 1809 – Downe, 19 de abril de 1882). Na seção “Circunstâncias favoráveis à seleção natural” de sua obra mais conhecida, “A Origem das Espécies” (publicada em 1859), Darwin afirmou que "[...] é em ambientes de água doce que encontramos sete gêneros de peixes ganoides, relíquias de uma ordem em tempos predominante. E é nesses ambientes que encontramos alguns dos organismos mais anômalos conhecidos no mundo, tais como o Ornithorhynchus e o Lepidosiren, que, tal como os fósseis, estabelecem, de algum modo, a ligação entre grupos biológicos agora muito afastados na escala natural. Estas formas anômalas podem quase ser apelidadas de fósseis vivos, pois resistiram até à atualidade, devido ao fato de terem habitado áreas confinadas e por, consequentemente, terem sido sujeitos a uma seleção menos intensa."

Há um grupo de peixes que representa um dos principais exemplos de fósseis vivos. São os atuais celacantos (espécies Latimeria chalumnae e L. menadoensis) – ilustrados na imagem abaixo.

Celecanto (Latimeria chalumnae), Museu de História Natural em Viena, Áustria. Foto: Faviel_Raven / Shutterstock.com

Sua descoberta se deu nas águas da costa sul-africana no ano de 1938, quando um exemplar vivo foi apanhado por pescadores no Oceano Índico, nas redondezas da foz do rio Chalumna, em Hamburgo. O peixe de 1,80 m de comprimento, cor azul-metálica e 80kg de peso foi levado ao Museu Nacional de East London, e lá a diretora Marjorie Courtenay-Latimer logo formulou uma hipótese que seria confirmada por um especialista em peixes, o Professor J. L. B. Smith, de que esse peixe pertencia a um grupo já extinto, dos Crossopterígeos – com registros fósseis mais antigos datando de 400-360 Ma (milhões de anos) atrás, enquanto os mais recentes sendo datados do Cretáceo, com mais de 65 milhões de anos de idade.

Também há dois gêneros de cefalópodes representados na atualidade por algumas espécies, o Nautilus e o Allonautilus, que pertencem ao grupo dos nautiloides. Embora esse grupo seja pouco expressivo atualmente, com apenas duas espécies, o mesmo já fora muito importante nos ecossistemas marinhos do Paleozóico inferior, com registros fósseis abundantes e diversificados e diversos gêneros e espécies.

Outro exemplo muito conhecido é o da Ginkgo biloba, uma espécie de árvore muito resistente que chegou a sobreviver à radiação de Hiroshima, após a explosão da bomba atômica lançada pelos Estados Unidos da América ao final da Segunda Guerra Mundial. O gênero Ginkgo provém do Jurássico Médio e teve seu auge no Cretáceo e no Cenozoico, porém atualmente um única espécie sobrevive, tendo se disseminado a partir do atual território da China. Em termos de plantas, além da Ginkgo biloba merecem destaque as cicadáceas e as gnetáceas, igualmente representantes do grupo Gimnospermas.

Mesmo que as espécies da atualidade estejam representadas no registro fóssil recente e sejam morfologicamente muito semelhantes aos seus parentes conhecidos do registro fóssil remoto (como do final do Mesozoico, no caso dos celacantos), cabe salientar que esses “fósseis vivos” não pertencem exatamente àquelas mesmas espécies. Isto é, não são a mesma entidade biológica.

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Fontes:

REBELO, D.; ANDRADE, A.; BONITO, J.; MARQUES, L. Geologia – Manual do Aluno. 1ª. Ed. Universidade de Aveiro; Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento; Fundação Calouste Gulbenkian; Ministério da Educação de Timor-Leste, 2013.

SILVA, Carlos Marques da. "Fóssil vivo". Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa - Universidade de Lisboa. Disponível em: <https://webpages.ciencias.ulisboa.pt/~cmsilva/Paleotemas/Fossilvivo/Fossilvivo.htm>. Acesso em: 12/10/2019.

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