Divisão Lycopodiophyta

Bacharel em Ciências Biológicas (UNIFESP, 2015)

Esta divisão do reino vegetal, também conhecida como Lycophyta, reúne algumas das espécies viventes mais antigas de plantas vasculares. Diferente das demais traqueófitas (plantas com sistema vascular), as Lycopodiophytas possuem microfilos (“folhas pequenas”) ao invés de megafilos. Isto significa que suas folhas, ou apêndices caulinares, são de tamanho reduzido porque elas possuem apenas um vaso vascular central não ramificado.

Historicamente as Lycopodiophytas são um dos primeiros grupos de plantas terrestres a surgirem, com fósseis datando do período Siluriano (há mais de 400 milhões de anos). Elas foram muito abundantes e dominantes por um período longo, uma vez que foram um dos primeiros organismos a ocupar um nicho vazio: o ambiente terrestre. Suas características morfológicas (presença de raiz e corpo recoberto por cutícula) e funcionais (ciclo de vida com alternância de gerações com um esporófito 2n e um gametófito n e realização de fotossíntese ao longo de todo o caule e microfilos) permitiu com que elas rapidamente obtivessem sucesso em ocupar e se desenvolver no solo, formando, no período Carbonífero, verdadeiras florestas com plantas de grande porte pertencentes ao gênero fóssil Lepidodendron. Esta e outras espécies vegetais daquele período formaram as reservas de carvão que são utilizadas pelos seres humanos como fonte de energia a centenas de anos. Entretanto, com o surgimento de outros grupos de plantas vasculares mais complexas elas foram competitivamente excluídas de alguns habitats e se tornaram pouco diversas. Atualmente, existem descritas 1.200 espécies pertencentes a esta divisão.

A divisão Lycopodiophyta é formada por 3 famílias: a Lycopodiaceae (mais abundante), a Isoetaceae e a Selaginellaceae (ambas com apenas um gênero). As Lycopodiaceae são plantas de pequeno porte (herbáceas) com caules dicotômicos e folhas microfilas sem lígulas nas bases. Elas se reproduzem através de esporos de tamanhos iguais (homosporada) liberados pelos esporângios que ficam nas bases das folhas. Os principais gêneros desta família são o Lycopodium, Lycopodiella e Huperzia. Elas ocorrem principalmente em regiões úmidas de clima subtropical, ocorrendo na região sul do Brasil.

As famílias Isoetaceae e Selaginellaceae diferem da anterior por serem heterosporadas, ou seja, possuírem esporos masculinos e femininos de tamanhos distintos. A primeira é composta apenas pelo gênero Isoetes, uma planta com distribuição cosmopolita, porém abundância reduzida. Algumas espécies são associadas a ambientes de charco (com ciclos de inundação) enquanto outras são completamente aquáticas, ocorrendo em lagos rasos e rios com fluxo lento. Suas microfilas variam muito de tamanho, possuindo lígulas (estrutura similar a uma escama ou espinho) nas porções inferiores. A base do corpo vegetal, que lança os rizomas no solo para a fixação, é um bulbo suculento que contém os esporângios masculino e feminino.

Já a família Selaginellaceae possui apenas o gênero Selaginella, típico das zonas tropicais com algumas poucas espécies ocorrendo no ártico e na Antártida. Elas são plantas rasteiras, com as raízes liberadas a partir do caule, com microfilas e esporófilas dotadas de lígulas. Algumas espécies possuem uma rede vascular nas folhas, uma característica única dentro da divisão. Outra curiosidade notável ocorre na espécie Selaginella bryopteris, uma planta poiquilohídrica (ou ressurgente). Quando o ambiente se torna excessivamente seco, essa espécie perde a raiz e entra num estado de severa desidratação caracterizado pelas folhas secas e murchas encolhidas em uma esfera marrom (devido a degradação da clorofila). Nesta forma leve e esférica a planta é facilmente carreada pelo vento e pela água, sendo reidratada e retornando a crescer normalmente quando as condições de umidade estiverem mais favoráveis.

Referências:

Chamberlain, A.C., 1967, January. Transport of Lycopodium spores and other small particles to rough surfaces. In Proc. R. Soc. Lond. A (Vol. 296, No. 1444, pp. 45-70). The Royal Society.

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