Objeto indireto pleonástico

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)
Graduação em Letras (Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, FUNCESI)

O objeto indireto pleonástico ocorre quando a ideia expressa pelo objeto indireto (complemento verbal intermediado pela preposição) é repetida (pleonasmo). Busca-se, por meio do referido recurso linguístico, a ênfase da ideia contida no objeto, repetindo-a na sequência. Ele se faz constantemente presente na Literatura, atendendo a finalidades artísticas e estilísticas diversas. Veja esta frase do escritor português Fernando Pessoa (apud Cunha e Cintra, 2008, p. 159):

A mim ensinou-me tudo.

Note o destaque dado ao fato de ter sido ensinado tudo a ele. A reiteração é realizada por intermédio do pronome átono (pronome que funciona como complemento e sem preposição): “me”. É imprescindível ressaltar que a utilização do objeto direto pleonástico precisa ser feita com cuidado, por meio de propósitos bem definidos. Por quê? Porque as repetições realizadas ao acaso, isto é, destituídas de significação, interferem de maneira decisiva na qualidade do texto, que se torna redundante e desorganizado. Frase como “Eu te falei com você.” é um exemplo de redundância presente em situações informais da oralidade. No entanto, deve ser evitada em contextos de uso formal da língua.

Examine outro exemplo do uso do objeto em foco:

Aos clientes, o que lhes demos foram bombons.

Observe que, na frase acima, a intenção foi realçar “aos clientes”, por meio de seu deslocamento para o início da frase e de sua repetição sob a forma pronominal átona “lhes”. Trata-se de uma frase que não é utilizada recorrentemente, sobremaneira, em contextos de comunicação cotidiana e oral. Normalmente, seria dito: “Nós demos bombons pros clientes.” E, se houvesse a opção pela inversão, teríamos: “Pros clientes, nós demos bombons.”. Vale reiterar que o objeto indireto pleonástico se faz substancialmente presente na esfera literária, que requer o uso de uma linguagem mais erudita e artisticamente criativa (permitindo-se, a título de exemplo, a construção de redundâncias).

Propõe-se, a seguir, a comparação entre o objeto indireto pleonástico e o objeto direto pleonástico:

  1. Aos padrinhos, lhes exigimos a chegada com antecedência à Igreja.
  2. Esta gramática, eu a ganhei de uma amiga há três anos.

No primeiro exemplo, a evidência foi direcionada à expressão “aos padrinhos”, por meio de seu deslocamento e pela repetição na forma plural do pronome átono “lhes”. Vale elucidar que o pronome supracitado se equivale “a eles” (preposição “a” + pronome pessoal “eles”). Por isso, é empregado para se referir a um objeto indireto. Nessa perspectiva, a construção, a título de ilustração, “Eu lhe aceito como marido.”, não se encontra em consonância com a norma culta, pois quem aceita, aceita algo ou alguém. Assim, tem-se “Eu o aceito como marido”. Já na segunda frase, o destaque é para “esta gramática”, cuja reiteração se realiza por meio do artigo definido “a”, uma vez que se trata de um objeto direto, receptor da ação verbal expressa pelo verbo “ganhei”.

Para finalizar: O objeto indireto pleonástico consiste na repetição da ideia expressa pelo objeto indireto (complemento verbal regido de uma preposição), com o intuito de realçá-lo.

Referência:

CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley. Complementos Verbais – Objeto Indireto Pleonástico. In: ___ Nova gramática do português contemporâneo. 5.ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2008, p. 159.

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