Poluição marinha

Mestre em Ciências Biológicas (UFF, 2016)
Graduada em Biologia (UNIRIO, 2014)

Estima-se que 0,6 bilhões de toneladas de lixo sejam despejados no oceano todos os anos. Além dos resíduos sólidos, poluentes líquidos, particulados e em forma de energia radioativa (ou ondas sonoras) também assolam o ambiente oceânico, provocando alterações a nível ecossistêmico que afetam a flora e fauna. A criação e expansão de “zonas mortas” (em inglês, dead zones), por exemplo, caracteriza-se pela alteração na composição química da água, que passa a apresentar níveis reduzidos de oxigênio, insuficientes para sustentar diversos organismos; este fenômeno é provocado pela entrada de nutrientes em excesso no meio aquático (eutrofização), fruto do despejo inadequado de diversas atividades antrópicas.

Os oceanos e mares são o principal destino dos subprodutos gerados pelas atividades humanas. Lixo sólido, resíduos agrícolas, poluentes orgânicos, petróleo e metais pesados encontram seu caminho até os oceanos todos os dias, proposital ou acidentalmente, embora novas regulamentações à respeito do descarte de substâncias contaminantes sejam estabelecidas diariamente. Até 1970, o despejo de substâncias tóxicas nos oceanos era recorrente, pois acreditava-se que estes compostos não seriam capazes de causar sérias alterações à química oceânica, e, por consequência, sua fauna e flora. Durante esta época, os defensores do despejo possuíam até mesmo um slogan: “A Solução Para a Poluição é a Diluição”. A partir de 1972, o descarte de compostos tóxicos nos oceanos e mares foi banido durante convenção realizada em Londres, e a lista de substâncias restritas foi atualizada em um novo tratado assinado em 1996. No entanto, o material tóxico eliminado previamente à adoção destas regras, e o despejo contínuo de substâncias permitidas pela legislação, ainda causam sérios prejuízos ao meio ambiente.

A poluição marinha é definida como a introdução, pelo homem, de substâncias ou energia no ambiente marinho (incluindo estuários) que produzem efeitos deletérios, como danos aos recursos vivos e à saúde humana, gerando obstáculos às atividades marinhas (incluindo pesca e lazer) e a redução da qualidade de vida. Uma das principais vias naturais de transporte de poluentes para o ambiente marinho consiste no escoamento superficial de continentes, rios e a atmosfera (poluição por fonte não-pontual). Por outro lado, em alguns casos, o despejo de poluentes é realizado por fontes pontuais como emissários submarinos, plataformas petrolíferas, tubulações de efluentes urbanos e industriais, entre outros, que lançam os contaminantes diretamente no mar, afetando a comunidade biótica local de forma significativa.

O tempo de permanência dos poluentes no ambiente oceânico, ou seja, sua persistência, representa uma das principais formas de classificação destes resíduos, que se dividem em quatro grandes categorias:

  • I) poluentes não-conservativos (ou biodegradáveis)
  • II) facilmente dissipáveis
  • III) conservativos
  • IV) resíduos sólidos

Os componentes do primeiro grupo caracterizam-se pelo baixo tempo de residência no ambiente aquático, sendo representados por substâncias de fácil degradação microbiana, como compostos orgânicos presentes em efluentes domésticos e industriais, rejeitos agrícolas e detergentes. Os poluentes facilmente dissipáveis (ex.: ácidos e bases inorgânicas; calor) consistem nos materiais que perdem sua toxicidade rapidamente após a entrada no ambiente marinho; desta forma, seus danos são localizados e restritos à área de lançamento. Por outro lado, poluentes conservativos não são susceptíveis à degradação bacteriana (ex.: pesticidas, metais pesados, energia radioativa), permanecendo por longos períodos no ecossistema marinho; este tipo de poluente é capaz de interagir com organismos, provocando-lhes graves danos. Por fim, o quarto grupo é composto por materiais como plástico e náilon (usados em redes de pescadores), que bloqueiam as vias respiratórias de organismos marinhos; além disso, estes poluentes podem prejudicar a atividade fotossintética através da redução da luminosidade na coluna d’água.

Principais formas de poluição marinha

Poluição orgânica e por nutrientes

Este tipo de poluição é o mais recorrente e antigo no meio aquático. Nesta categoria incluem-se todos os rejeitos ricos em substâncias orgânicas (carbono, nitrogênio e fósforo), as quais são passíveis de degradação bacteriana, ou seja, transformam-se em compostos inorgânicos através do processo de mineralização. Efluentes domésticos e industriais (principalmente do setor químico e alimentício), e rejeitos de atividades agropecuárias representam os principais poluentes orgânicos que afetam intensamente as regiões costeiras, onde a maioria dos centros urbanos e industriais estão instalados. A eutrofização do meio aquático consiste na principal consequência deste tipo de poluição, gerando o acúmulo de matéria orgânica no ambiente, além da redução dos níveis de O2 dissolvidos na coluna d’água (zonas hipóxicas e anóxicas) e eventos frequentes de floração de algas, inclusive nocivas (que liberam substâncias tóxicas).

Poluição por pesticidas e outras substâncias tóxicas

A principal característica destes poluentes consiste em seu potencial de bioacumulação; os pesticidas e outras substâncias industriais tóxicas não se dissolvem nos oceanos, sendo absorvidos ou ingeridos por uma diversidade de organismos marinhos. Estes compostos acumulam-se em seus tecidos, gerando prejuízos à sua reprodução e crescimento, e se dispersam no ambiente marinho através da cadeia trófica; desta forma, tais poluentes apresentam maiores concentrações nos predadores de topo do que em organismos pertencentes à base da pirâmide trófica. Estudos científicos revelaram que alguns fármacos consumidos pelo homem, porém não totalmente digeridos pelo corpo (ex.: anticoncepcionais), estão se acumulando na carne de peixes e moluscos ingeridos pela população. Entre as principais consequências da ingestão destes poluentes para a saúde humana pode-se citar danos ao sistema imune, redução da fertilidade e mudanças comportamentais, além de uma alta correlação entre a presença de compostos tóxicos e o desenvolvimento de tumores cancerígenos.

Poluição por resíduos sólidos

Poluição marinha com resíduos sólidos. Foto: Fotos593 / Shutterstock.com

O descarte de resíduos sólidos como sacolas plásticas e redes de pesca, constitui um problema persistente nos oceanos. A formação de “ilhas de lixo”, áreas oceânicas que apresentam alta concentração de lixo flutuante em decomposição, representam uma das principais consequências do acúmulo destes materiais em zonas marinhas ao redor do globo, de acordo com o movimento das correntes oceânicas. Atualmente, duas “ilhas” de lixo foram identificadas: uma na porção Norte do Oceano Pacífico, com aproximadamente 696 mil km2 de extensão, e outra no Oceano Atlântico, descoberta em 2010. Este tipo de poluente, insolúvel e com baixo potencial para a biodegradação, afeta a vida marinha, provocando lesões e até mesmo a morte de diversos animais, além de causar prejuízos à saúde humana e às navegações marítimas.

O descarte de sacolas plásticas, por exemplo, pode bloquear vias respiratórias e a passagem de alimento pelo estômago de várias espécies marinhas, especialmente tartarugas e alguns mamíferos como baleias e golfinhos, que confundem este material com seu alimento; além disso, anéis plásticos utilizados em volta do gargalo de bebidas também podem ficar presos no bico e pescoço de aves marinhas, sufocando-as até a morte. Os resíduos sólidos também podem retornar ao continente através de correntes e marés, poluindo praias e outros habitats costeiros.

Outros poluentes

Outros tipos de perturbação do ambiente marinho consistem na poluição sonora, causada pelo barulho excessivo de embarcações marítimas, plataformas petrolíferas e o uso de sonares, que interferem na comunicação de mamíferos marinhos como baleias e golfinhos; a poluição por metais pesados também representa uma grave ameaça à estes ambientes, visto que a contaminação por elementos como o cobre, ouro e zinco, produzem efeitos deletérios em diversos organismos marinhos (principalmente moluscos filtradores), representando riscos para a saúde humana. Por fim, a poluição por derramamento de óleo consiste em eventos pontuais extremamente tóxicos para a vida marinha, afetando processos fundamentais como a fotossíntese, através da redução da luminosidade, além de gerar irritações dérmicas e outros problemas fisiológicos na fauna marinha.

Referências:

Biologia Marinha. Pereira, R. C., & Soares-Gomes, A. (2002).

Rio de Janeiro: Interciência, 2, 608.

National Geographic: Marine Pollution. http://www.nationalgeographic.com/environment/oceans/critical-issues-marine-pollution/

NOOA: Ocean Pollution http://www.noaa.gov/resource-collections/ocean-pollution

WWF Global. Marine Problems: Pollution. http://wwf.panda.org/about_our_earth/blue_planet/problems/pollution/

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