Geografia da África

Especialista em Geografia do Brasil (Faculdades Integradas de Jacarepaguá, RJ)
Mestre em Educação (Estácio de Sá, 2016)
Graduado em Geografia (Simonsen, 2010)

Falar da África é falar do primeiro continente habitado pelo ser humano em todo o mundo e de onde o mesmo partiu para os demais continentes. Muitas vezes, há um imaginário popular sobre uma África pobre e destruída por guerras, o que pode ser verdade em alguns casos, porém não responde pela totalidade do continente africano.

Igualmente muitas pessoas falam em uma cultura africana ou cultura negra, quando existem inúmeras etnias, povos e culturas negras distintas na África (algumas até rivais entre si). Imaginam também uma África formada apenas por pessoas de etnias negras, quando na realidade há uma variedade étnica considerável.

Conflitos armados e aspectos políticos

Apesar de possuir grandes e poderosos impérios na antiguidade, como o Egito, Etiópia e outros, a África foi quase inteiramente colonizada pelos europeus, especialmente após a partilha da África na conferência de Berlim (século XIX). Esta colonização provocou sérias e graves mudanças na geografia da África, eliminando antigas fronteiras nacionais, obrigando povos historicamente rivais a viverem dentro do mesmo território.

Em um processo de imposição cultural, tanto da religião quanto do idioma e outros costumes, aqueles povos foram perdendo muito de sua cultura original e substituindo a mesma pela cultura do colonizador. Durante o processo de descolonização da África, os povos já estavam aculturados, sendo inviável retornar as antigas fronteiras e então eclodiram diversas guerras civis por todo o continente, pois os antigos povos rivais vivendo no mesmo território passaram a disputar o controle do mesmo.

A situação das guerras foi agravada com a chegada da Guerra Fria, em que os lados em conflito na África passaram a se aliar com o governo da União Soviética e/ou dos Estados Unidos da América em busca de apoio financeiro e militar. Mesmo com o fim da Guerra Fria, alguns desses conflitos permanecem, mesmo que com menor intensidade como no separatismo de Cabinda em Angola ou com maior intensidade como no caso da Somália em que é dificil até definir quem efetivamente controla o país (que além de tudo se tornou um forte reduto para a pirataria, como demonstrado no livro e filme de Capitão Phillips que relata a história real do capitão americano que foi sequestrado por piratas somalis).

Um dos resquícios da Guerra Fria foram os países que se mantiveram como socialistas na África ou com forte influência do mesmo, como no caso de Angola onde o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), com apoio da URSS, venceu os seus rivais e implantou um regime socialista nos moldes soviéticos. Recentemente o governo de Angola tem feito uma transição, junto com o próprio MPLA dominante, para um modelo mais socialdemocrata do que marxista, no entanto são nítidas ainda as influências da era pró-soviética.

Outro fator de conflito e tensão que ficou muito famoso na África, apesar de não mais existir, foi o Apartheid na África do Sul. O Apartheid era um regime oficial de segregação racial, com origem holandesa mas que foi continuado. O regime recebeu apoio da comunidade de origem holandesa sul-africana e inclusive da Igreja Reformada Holandesa. Por outro lado, duas lideranças que se destacaram na luta contra o Apartheid e que posteriormente impediram qualquer tentativa de revanchismo contra a população branca, lutando pela reconciliação de todos e pelo perdão mútuo, essas lideranças foram Nelson Mandela (que veio a ser presidente da África do Sul) e passou boa parte da sua vida preso por desafiar o regime, bem como o Arcebispo da Igreja Anglicana na África do Sul Desmond Tutu.

Uma outra circunstância que tem aumentado os conflitos armados e o terrorismo na África, especialmente no Norte da África tem sido o crescimento dos grupos terroristas ligados ao fundamentalismo muçulmano. Um caso recente bem famoso tem sido o do grupo Boko Haram que luta contra a cultura ocidental e cristã e tenta impor uma interpretação extremista da lei islâmica sobre a Nigéria (o sul do país é majoritariamente cristão e o norte majoritariamente islâmico).

Aspectos físicos

Além de ser o berço da espécie humana, a África é o continente geologicamente mais antigo do mundo, o seu relevo se formou antes dos demais e portanto esteve mais exposto aos efeitos da erosão, fazendo com que o mesmo não seja tão elevado, mesmo as suas montanhas não são tão altas quanto em outros locais. Inclusive, vemos a presença de profundas depressões no relevo como o das Grandes Fossas Africanas.

A maior parte do continente está nos climas tropical e equatorial, considerando que a linha do Equador atravesse o continente na parte central. Estas regiões são cobertas por florestas equatoriais e tropicais.

Localização do Deserto do Saara. Ilustração: AridOcean / Shutterstock.com [adaptado]

Nas regiões mais ao norte e mais ao sul temos áreas com estações secas e a presença de desertos como o famoso deserto do Saara na porção norte do continente e os desertos de Kalahari e da Namíbia no sul. Entre essas regiões desérticas e as regiões tropicais/equatoriais existem as savanas, que são uma vegetação equivalente ao nosso Cerrado.

Vegetação de savana na África. Foto: TTphoto / Shutterstock.com

Apesar das áreas secas, a África possui importantes rios, como por exemplo: O Rio Nilo famoso pela sua relação com o Egito antigo, o rio Níger no oeste, o rio Congo no ao centro e o Zambeze ao sul. No lestre africano é possível encontrar alguns grandes lagos.

Duas regiões que possuem destaque na África são o Magreb e o Sahel. Magreb, situado no noroeste africano com povos muçulmanos de origem berbere que mantiveram sua língua e cultura e que habitam áreas que são em boa parte desérticas. O Sahel é a região de estepes entre o Saara e as savanas do Sudão, sendo uma região seca que vai da Mauritânia até a Eritréia.

Aspectos culturais

Ao falarmos em religião afro no Brasil, lembramos do Candomblé e da Umbanda, especialmente do primeiro, sendo que ambos são religiões afrobrasileiras, especialmente a última. O próprio Candomblé não é africano, mas reune elementos de diversas religiões e cultos africanos. Cada nação possuia um culto distinto, com orixás (voduns, inkices, …) e os escravos no Brasil para salvarem as suas crenças começaram a fundir os vários cultos. Isso fez com que inclusive algumas entidades cultuadas na África fossem desconhecidas no Brasil.

Entre os cultos tradicionais africanos podemos dar destaque ao culto de Ifá, famoso pelos oráculos como o jogo de búzios e que tem começado a se tornar mais conhecido no Brasil. Porém, na realidade, a África predominantemente não segue mais os cultos tradicionais nativos dela, sendo basicamente dominada pelas religiões islâmica (especialmente no norte) e cristã (especialmente mais ao sul) nas mais diversas vertentes de ambas as religiões. A Nigéria é um bom exemplo desta divisão da África entre uma maioria islâmica ao norte e uma maioria cristã ao sul.

Com a existência de mais de mil línguas faladas na África, já podemos ter ideia do grau de diversidade cultural deste continente. Sendo difícil falar em uma cultura africana única tal como é difícil faalr em uma cultura européia única, sendo que italianos e russos possuem culturas bem distintas.

Aspectos econômicos

Apesar de possuir alguns bolsões de miséria, a África não se resume a eles, ao contrário da crença popular. A África é grande produtora de algumas riquezas pelo mundo, o petróleo na área da Nigéria e Angola, a produção de diamantes, azeite-de-dendê, ouro, gás natural, carvão mineral e até o ilegal comércio de marfim.

O grande destaque em nível de desenvolvimento na África é a República da África do Sul que é o país mais desenvolvido do continente e o único africano no grupo de países em desenvolvimento conhecidos como BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

A agricultura também possui um grande peso na economia do continente africano, sendo inclusive a principal atividade econômica do mesmo, vale inclusive o destaque da África como a maior exportadora de cacau para o mundo. Outros gêneros agrícolas são algodão, chá-preto, café, amendoim, sisal e a famosa fruta marula que é muito conhecida no resto do mundo pelos licores que são com ela fabricados.

Um dos países que mais vem investindo na África é a China, considerando a sua necessidade de matéria-prima africana, a disponibilidade de mão-de-obra com baixo custo e tudo isso somado com um vasto mercado consumidor a ser explorado. Este investimento todo por parte do governo chinês, além de ajudar no desenvolvimento dos países africanos, serve também para fins geopolíticos ao aumentar a área de influência chinesa no mundo.

Leia também:

Referências:

https://escola.britannica.com.br/levels/fundamental/article/%C3%81frica/480539

https://www.publico.pt/2017/02/07/mundo/entrevista/o-sahel-concentra-todas-as-crises-do-mundo-1761024

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/04/130430_china_africa_ru

Arquivado em: África