Classes gramaticais

Por Leticia Gomes Montenegro

Mestre em Linguística, Letras e Artes (UERJ, 2014)
Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFBA, 2007)

Categorias: Português
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A gramática organiza as palavras nos seguintes grupos: substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome, verbo, advérbio, preposição, conjunção e interjeição; contabilizando um conjunto de dez classes gramaticais (classes de palavras). Esta classificação possui um critério de composição denominado, para alguns gramáticos, de critério morfo-semântico. Um dos fundamentos da organização de palavras em classes está relacionado ao significado extralinguístico que o vocábulo apresenta.

Para realizar uma classificação adequada, o gramático Evanildo Bechara, orienta um estudo com base na distinção dos seguintes significados:

SIGNIFICADO LEXICAL; um sentido existente anterior à palavra. Corresponde a um referente no mundo, um objeto ou algo que possui existência fora da linguagem. “Corresponde ao quê da apreensão do mundo extralinguístico” (BECHARA,2009, p.109) É uma organização que a linguagem constrói para a realidade existente anterior e independente dela.

Exemplo: É o significado comum a cada uma das séries de palavras: amor – amante – amar – amavelmente.

SIGNIFICADO CATEGORIAL; “correspondem ao como da apreensão do mundo extralinguístico”. (BECHARA, 2009, p. 109) É o modo de ser das palavras dentro do texto, por isso não possuem classes léxicas fixas, podem surgir em um discurso como substantivo e em outro como adjetivo.

Exemplo: amor (quando usado como substantivo); amar (quando usado como verbo)

Observação: De acordo com o estudo apresentado por Evanildo Bechara em A Moderna Gramática Portuguesa, é válido destacar que o substantivo, o adjetivo, o verbo e o advérbio correspondem as quatro únicas reais “categorias gramaticais” da língua. Entretanto, na gramática tradicional essas classes se apresentam definidas de maneira confusa. Bechara denomina essas classes de “categorias verbais”, porque são as únicas dotadas do significado categorial.

SIGNIFICADO INSTRUMENTAL; se refere aos significados dos morfemas, os elementos que compõem o universo da gramática. Como artigos e preposições, por exemplo. Ou como elementos de palavras: s de canetas. Fazem parte do conjunto de morfemas que possuem significado instrumental nas combinações gramaticais: prefixos, sufixos, desinências, acentos, dentre outros. Os significados instrumentais correspondem ao modo da expressão material.

SIGNIFICADO ESTRUTURAL OU SINTÁTICO; é o resultado das combinações de unidades lexemáticas ou categoremáticas com morfemas, dentro da oração. São significados estruturais singular, presente, passado, futuro, entre outros, que se constroem nas relações dentro da oração. Por exemplo, o “s” de cadernos é o resultado estrutural da combinação.

SIGNIFICADO ÔNTICO: só ocorre no plano da oração, refere-se ao valor existencial designado na oração; se é afirmativo, imperativo, negativo.

Essas designações usadas para classificar as palavras estabelecem-se nos planos da forma, do conteúdo e das relações no contexto intralinguístico e extralinguístico. Entretanto, o fundamental é identificar que uma palavra de determinada classe pode mudar para outra classe gramatical com base nesses significados e em suas implicações linguísticas.

FUNÇÃO: Esses são aspectos servem para entender a razão pela qual, em uma análise morfológica, a mesma palavra pode ser classificada de maneira diferente. Nesse sentido, ao tomar como exemplo uma palavra como “azul” para classificar, encontrará certa dificuldade se ela não estiver localizada em um contexto relacional com outras palavras.

Com este estudo, conclui-se que:

Substantivo, adjetivo, verbo e advérbio são palavras lexemáticas. Classificadas de acordo com o significado lexical.

Conforme as gramáticas descritivas, são exemplos dessas classes:

Dentro de contextos nos quais as análises se tornam mais precisas:

Exemplo: A escola encerrou cedo as atividades matinais.

As palavras em destaque são, respectivamente, substantivo, advérbio, substantivo e adjetivo.

São palavras lexemáticas, pois cada uma delas apresenta significado lexical.

Os pronomes e os numerais são palavras categoremáticas, classificadas por um sentido categorial linguístico.

Exemplo: A sua escola encerrou a primeira atividade mais cedo.

As palavras em destaque são, respectivamente, pronome e numeral. São palavras categoremáticas, pois estão ligadas ao contexto em que estão inseridas.

E os artigos, preposições e conjunções são palavras morfemáticas, pois possuem estruturas com sentidos completos, são independentes e não apresentam sentido fora da linguagem.

Exemplo: A escola encerrou as aulas mais cedo, porém solicitou uma reunião com os familiares.

As palavras em destaque são, respectivamente, artigo, conjunção, preposição, artigo. Elas possuem significados e estruturas independentes de outros vocábulos, não precisam fazer parte de um morfema para serem completas, porém só fazem sentido quando estão dentro da oração.

ATENÇÃO:

Uma palavra categorimática pode ter sentido instrumental, como é o exemplo dado por Evanildo Bechara (2009, p. 112):

“Meu lápis.”

Meu: pertence à classe de palavras categoremáticas dos pronomes (Pronome possessivo). Nesta estrutura o pronome assume valor de adjetivo, uma vez que caracteriza o substantivo lápis.

Este foi apenas um exemplo de como cada categoria de significados influencia na análise das classes, porém o aluno precisa saber identificar a qual classe a palavra pode pertencer isoladamente, e analisar em qual classe ela se enquadra contextualmente.

Verifica-se determinadas classes que possuem um conjunto definido ou limitado de palavras, não podendo ocorrer outro tipo de vocábulo que faça parte de tais classes. O que facilita a identificação, e posterior análise dentro das orações. Porem, há vocábulos que se repetem em mais de uma classe de palavras, o que reforça a ideia de que a análise da oração se faz necessária para a classificação de cada palavra.

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Resumo das classes de palavras

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São as palavra que determinam o substantivo, antecedendo-os: a, as, o, os, um, uns, uma, umas.

Numerais

São as palavras que indicam quantidade, ou o lugar que um substantivo ocupa em uma série numérica. Possuem algumas subclassificações: cardinais (um, dois, três...); ordinais (primeiro, segundo, terceiro, quarto...); multiplicativos (dobro, triplo...); fracionários (metade, terço....); coletivos (dezena, dúzia, centena...)

Pronomes

São classificados de acordo com a sua função na frase. Podem ser pronomes adjetivos ou pronomes substantivos. Para estabelecer a diferença, na análise morfológica, verifica-se que os pronomes substantivos são aqueles que surgem isolados na frase, enquanto os pronomes adjetivo aparecem acompanhando os substantivos, caracterizando-os.

Os pronomes podem ser:

Exemplos de usos:

Meus diários são fundamentais na minha história. (pronomes possessivos adjetivos)

Teu rosto me agrada a memória. (pronomes possessivos adjetivos)

Eu contei tudo para que ela não se assustasse depois. (pronomes pessoais)

Quem vai concluir as atividades do dia? (pronome interrogativo)

O problema foi todo resolvido por mim. (pronome oblíquo tônico)

Aquele bairro, o qual tem uma praça muito legal, fica localizado próximo daqui. (pronome demonstrativo; pronome relativo)

Conjunções

Estabelece a relação entre dois termos da oração ou entre duas orações. Elas podem ser:

Substantivos

São as palavras que nomeiam ou designam seres e objetos. Podem ser compostos por apenas uma palavra; simples, ou por mais de uma; composto. São variáveis em gênero, número e grau.

Possui diversas classificações e características dentro de um amplo conjunto de exemplos de substantivos.

Concreto: pessoas, animais, vegetais, lugares, objetos. Exemplos: casa, mesa, caderno, igreja, livro, caneta, pessoa, humanos, etc.

Abstratos: ações, sentimentos, estados, qualidades. Exemplos: alegria, amar, sentir, etc.

Próprios: indivíduos de uma espécie. São grafados com a letra inicial maiúscula. Exemplos: São José dos Campos, Maria, Paris.

Comuns: designam de forma genérica todos os seres de uma espécie: exemplos: país, oceano, mulheres.

Coletivos: conjunto de seres ou objetos da mesma espécie. Exemplos: acervo, alcateia, bando, matilha, etc.

Adjetivos

São palavras que caracterizam os seres ou os objetos, indicando qualidade, modo, aspecto, aparência ou estado. São variáveis em gênero, número, e grau.

Exemplos: A casa colorida deu alegria ao condomínio.

As flores perfumadas enfeitam o jardim.

As crianças chatas brincavam e faziam barulho.

Advérbios

São termos que modificam outros termos tais como o verbo, os próprios advérbios e adjetivos.

Exemplo: Maria correu intensamente para chegar até aqui.

Classificam-se em advérbios de:

Lugar: abaixo, acima, adiante, ali, aqui, etc.

Tempo: agora, ainda, amanhã, antes, breve, depois, cedo, tarde, nunca, etc.

Modo: assim, bem, mau, depressa, melhor, pior, bondosamente, regularmente, etc.

Intensidade: muito, pouco, bastante, bem, demais, quão, tão, etc.

Dúvida: acaso, porventura, possivelmente, quiçá, talvez, etc.

Afirmação: sim, certamente, efetivamente, realmente, etc.

Negação: não.

Verbo

Palavra variável que indica ação, estado ou fenômeno da natureza. Flexionam em número, pessoa, voz, modo, formas e tempo.

João comeu muito arroz no almoço. (indica ação)

Ontem choveu até alagar a cidade. (fenômeno da natureza)

Os alunos continuam alegres. (indica estado)

Preposição

Relaciona dois termos da oração, geralmente, o primeiro termo é explicado ou tem seu sentido completado pelo segundo termo após a preposição.

São Preposições: a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, sem, sob, sobre, trás, etc.

Interjeição

É uma expressão que representa uma emoção.

São exemplos de interjeição: ah! Oba! Eba! Bravo! Oxalá! Tomara!

Bravo! Gritava a platéia satisfeita.

Alô! Alô! Alguém responde, por favor.

Bibliografia:

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. – 37. ed. rev., ampl. e atual. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

CUNHA, Celso e CINTRA, Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. – 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

CASTILHO, Ataliba T. de. Nova gramática do português brasileiro. – 1. Ed., 4ª reimpressão – São Paulo: Contexto, 2016

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